Mônaco-1966: Bob Bondurant, um quarto lugar digno de filme

A bordo de um BRM, Bob Bondurant arrancou do último lugar para obter seus três únicos pontos na carreira

A bordo de um BRM, Bob Bondurant arrancou do último lugar para obter seus três únicos pontos na carreira

Bob Bondurant tinha uma carreira consolidada nos protótipos quando decidiu ingressar na Fórmula 1. No fim de 1965, o norte-americano participou das duas últimas etapas da temporada, ambas na América do Norte: no GP dos Estados Unidos, com um Ferrari, foi nono em Watkins Glen; e no GP do México, com um Lotus, abandonou na Cidade do México. No ano seguinte, Bondurant se tornou consultor técnico do célebre filme “Grand Prix”, do diretor John Frankenheimer, e treinou o ator James Garner para pilotar carros de fórmula. Em meio aos compromissos cinematográficos, Bob voltaria a competir na categoria máxima do automobilismo. Logo na primeira corrida da temporada de 1966, encararia o tradicional GP de Mônaco. Como num roteiro de cinema, Bondurant, a bordo de um BRM P261, se tornou um inesperado astro ao obter a quarta posição no Principado, depois de largar em último.

Nascido em 27 de abril de 1933, em Evanston, Illinois, o estadunidense comemorou demais o surpreendente feito nas ruas monegascas. Ao assegurar um lugar na zona de pontos, Bob conquistava seu ápice no automobilismo. Depois do feito em Mônaco, jamais Bondurant apareceu num top 6. Tampouco seguiu sua carreira na Fórmula 1 – ao fim daquela temporada, se despediu do ‘circo’ e retomou sua trajetória nos Estados Unidos, onde veio a abrir uma Escola de Pilotagem de Alta Performance. Porém, a quarta posição marcou tanto a vida de Bondurant que o norte-americano decidiu celebrar seu casamento com a esposa, Patricia, no circuito, em uma das ‘pernas’ do S da Piscina, às vésperas do GP de Mônaco de 2010. A inusitada cerimônia foi testemunhada por espectadores da etapa, ressaltando a importância do lugar para Bob.

O quarto lugar em Mônaco foi tão significante que Bob decidiu se casar no Principado, em 2010

O quarto lugar em Mônaco foi tão significante que Bob decidiu se casar no Principado, em 2010

E por que essa devoção pelo tradicional circuito de rua? Simples. Bondurant não tinha a menor pretensão de pontuar, uma vez que seu carro sequer estava à disposição para a etapa monegasca de 1966. Em entrevista concedida em junho de 2012 para o jornalista Dennis Gray, do site Sports Car Digest, o norte-americano relatou quais foram os desafios com os quais se deparou antes da corrida. “No início da temporada, a maioria dos times estavam com novos motores de 3 litros, enquanto meu BRM era impulsionado por um propulsor de 2 litros. Por isso, era um carro para disputar, no máximo, um sexto lugar”, disse o ianque.

Outro fator complicador para um desempenho satisfatório em Mônaco era a falta de capacidade de seu time. Bob iria defender uma equipe não-oficial da BRM, o Team Chamaco-Collect. “O dono não tinha conhecimento mecânico para preparar um carro de ponta. Ele trabalhava na preparação de carros privados de pessoas endinheiradas, nada grande como a Fórmula 1”, afirmou o norte-americano ao Sports Car Digest. O amadorismo ficou evidenciado ao tomar conhecimento de que não teria carro para disputar o primeiro dia de treinos no Principado. Na quinta feira, seu bólido não estava em Mônaco. Diante do descaso, Bondurant tratou de se dedicar às gravações de “Grand Prix” no circuito.

Da esq. para a dir.: Jim Clark, John Surtees, Denny Hulme e Bondurant

Da esq. para a dir., Jim Clark, John Surtees, Denny Hulme e Bondurant: no meio das feras

“Eu estava trabalhando na captação de imagens no circuito. Logo, meu contato com a pista se deu nas filmagens. O carro só chegou na sexta-feira, mas só fui conduzi-lo no sábado”, observou o piloto norte-americano. Quando Bob entrou no cockpit de seu BRM, mais um problema: a bateria do carro estava no fim. “Ao entrar no túnel, ele simplesmente apagou. Eu pensei: ‘ó, merda, isso não é nada bom’. Mas o pessoal conseguiu consertá-lo e consegui classificar o carro para a prova”, observou o estadunidense. Bondurant anotou 1m37s3, garantindo a 16ª e última vaga no grid para a etapa monegasca, superando cinco adversários na disputa por um lugar na largada. Contudo, seu tempo foi 7s4 inferior ao anotado por Jim Clark (Lotus), pole em Mônaco com 1m29s9.

Devagar e sempre: Bob carregou seu BRM com cuidado e contou com a quebra dos rivais para ascender no GP de Mônaco

Bob carregou seu BRM com cuidado e contou com a quebra dos rivais para ascender no GP de Mônaco

A corrida

Diante tamanha disparidade, e largando na última posição, o que Bob poderia esperar para o GP de Mônaco? Chegar ao fim da prova já seria um prêmio. Mas o que aconteceu naquele 22 de maio de 1966 marcou para sempre Bondurant. Mesmo com um equipamento limitado, o norte-americano partiu com entusiasmo para a corrida. Na volta 1, superou Jo Bonnier (Cooper) e se aproveitou da queda de Jim Clark (Lotus) para o fim do pelotão para garantir o 14º lugar. Na passagem seguinte, foi a vez de Richie Ginther (Cooper) cair para último, o que deixou Bob em 13º. Na volta 3, Clark superou Bondurant, que retornou para o 14º posto, mas ficou ali por pouco tempo. Com o abandono de Bob Anderson (Brabham), o norte-americano da BRM recuperou a 13ª posição.

Apesar disso, o ritmo de Bondurant era muito inferior se comparado ao dos adversários. Ginther, na volta 5, e Bonnier, na 6, ultrapassaram Bob. Novamente, o estadunidense estava na 15ª e última colocação. Todavia, na volta 7, os xarás Jo Bonnier e Jo Siffert (Brabham) enfrentaram problemas em seus bólidos, o que recolocou Bob em 13º. Com o abandono de Bruce McLaren (McLaren) na volta 9, Bondurant passou a figurar em 12º. Ali permaneceu até a volta 14, quando John Surtees (Ferrari), então líder da corrida, e Denny Hulme (Brabham) abandonaram com o mesmo problema: transmissão. Na volta 16, o piloto da BRM estava no top 10.

Mesmo sem treinar com seu BRM, Bondurant resistiu bravamente com seu equipamento

Mesmo sem treinar com seu BRM, Bondurant resistiu bravamente com seu equipamento

A ascensão de Bondurant não parou por ali. Na volta 18, Jack Brabham (Brabham), com problemas de câmbio, deixou a prova, o que fez Bob avançar para o nono lugar. Duas voltas depois, o norte-americano superou Guy Ligier (Cooper) e assumiu o oitavo posto. Na volta 34, Mike Spence (Lotus) abandonou com problemas de suspensão, o que fez Bondurant subir para a sétima colocação. A partir dali, a prova para Bob passou a ser de resistência. Conduzir seu bólido até o final passou a ser o grande desafio do estadunidense. Caso a sorte sorrisse para ele, pontuar seria possível. Na volta 56, o motor Maserati do Cooper de Jochen Rindt deixou o austríaco na mão, colocando o ianque da BRM no top 6.

Quatro voltas depois de assumir o sexto lugar, Clark abandonou com problemas de suspensão. Sem o escocês da Lotus, Bondurant se viu na quinta posição. Na volta 60, haviam cinco carros na pista. À frente de Bob naquele momento, estavam Jackie Stewart (BRM), Lorenzo Bandini (Ferrari), Graham Hill (BRM) e Richie Ginther. Os outros 11 já haviam deixado a disputa. A pontuação estava garantida. Bastava levar seu BRM para a bandeira quadriculada. Num ritmo lentíssimo, Bondurant conduzia seu bólido. Não se importava mais em alcançar seus adversários. Na volta 77, o norte-americano viu o compatriota Ginther encarar problemas em seu Cooper, e assumiu o quarto posto.

Quebra do compatriota Ginther colocou Bob em 4º: roteiro digno de filme

Quebra do compatriota Ginther colocou Bob em 4º: roteiro digno de filme

Stewart, Bandini e Hill eram inalcançáveis. A Bob, restava torcer para a quebra de um dos três para aparecer no pódio. Ao mesmo tempo, a corrida tinha 100 voltas. Resistir na pista foi uma dura missão, mas Bondurant cumpriu seu objetivo. A vitória no Principado ficou com Jackie, seguido por Lorenzo e Graham. Porém, quem celebrou bastante foi o ianque, que completou o GP a 5 voltas de Stewart. “Larguei em último e tive que trabalhar bastante para receber a bandeirada em quarto. Foi maravilhoso alcançar a zona de pontos”, resumiu Bob ao site Sports Car Digest. Um final feliz para um desempenho histórico, que poderia muito bem ter roteirizado um filme…

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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