Espanha-1994: Mark Blundell dá último pódio à Tyrrell

Blundell (à dir.) obteve o 77º e último pódio da Tyrrell na categoria máxima do automobilismo

Blundell (à dir.) obteve o 77º e último pódio da Tyrrell na categoria máxima do automobilismo

O dia 29 de maio de 1994 ficou marcado na história da Fórmula 1. Naquela data, a categoria máxima do automobilismo testemunhou o 77º e último pódio da Tyrrell. O derradeiro top 3 do time de Ken Tyrrell ocorreu no GP da Espanha daquele ano, disputado em Montmeló. Coube a Mark Blundell conquistar esta façanha. A bordo de um modelo 022, o britânico obteve um inesperado terceiro lugar no Circuito da Catalunya, sendo superado apenas por Damon Hill (Williams), o vencedor, e Michael Schumacher (Benetton), o segundo. Graças à memorável apresentação de Mark na pista espanhola, a Tyrrell retornou ao pódio depois de quase três anos.

Desde o GP do Canadá de 1991, quando Stefano Modena foi segundo em Montreal, a escuderia não colocava um piloto entre os três primeiros. Em 1992, o melhor que o time de Ken Tyrrell conseguiu foi um quarto lugar no GP do Japão, em Suzuka, com Andrea de Cesaris. Contudo, em 1993, a equipe foi um tremendo fiasco – não anotou nenhum ponto. Para não repetir o fracasso daquele ano, a equipe se reestruturou em 1994. Para elaborar o projeto do 022, contratou o diretor técnico Harvey Postlethwaite e o projetista Mike Gascoyne. E Blundell era mais uma peça que se juntava para o audacioso projeto de reerguer a Tyrrell.

Em 1994, Mark disputou sua terceira temporada na categoria máxima do automobilismo

Mark se uniu à Tyrrell em 1994, depois de disputar duas temporadas pela Brabham (1991) e Ligier (1993)

Em 1994, Mark participava de sua terceira temporada na Fórmula 1. Nascido em 8 de abril de 1966, em Londres, na Inglaterra, Blundell iniciou aos 14 anos na velocidade – todavia, sobre duas rodas. Em 1980, ingressou no mundo do motocross, competindo nos principais campeonatos do Reino Unido. Três anos depois, trocou as motos pelos carros. Em 1983, estreou na Fórmula Ford Britânica, onde sagrou-se vice-campeão da categoria júnior. No ano seguinte, obteve os títulos regional e britânico da FF-1600. Depois, assegurou os troféus do Britânico (1985) e do Europeu (1986) de FF-2000.

Com todos os títulos da Fórmula Ford já angariados, Mark tomou uma decisão surpreendente. Ao invés de seguir o caminho natural de todo piloto inglês e competir na Fórmula 3 local, Blundell saltou para a Fórmula 3000 Internacional em 1987. Em três anos na categoria continental, porém, não obteve grandes resultados – seu melhor desempenho ocorreu em 1988, quando foi duas vezes segundo colocado e ficou com o sexto lugar na temporada. Em 1990, passou a competir em protótipos. Então com 24 anos, trazia experiência suficiente para chegar à Fórmula 1 – e foi o que aconteceu no ano seguinte, quando defendeu a Brabham.

Blundell estreou na Fórmula 1 pela Brabham, e obteve um ponto em Spa-Francorchamps

Blundell estreou na Fórmula 1 em 1991 na Brabham, e obteve um ponto em Spa-Francorchamps

Dos 16 GPs de 1991, não se classificou para dois e abandonou nove. Apesar do campeonato problemático, obteve um ponto ao ser sexto no GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps – justamente a etapa em que Michael Schumacher estreou na categoria máxima do automobilismo. Com o declínio da Brabham, Mark deixou o time. Sem oportunidades como titular na Fórmula 1, retornou para os protótipos em 1992, vencendo, naquele ano, as 24 Horas de Le Mans pela Peugeot. No ano seguinte, voltou à F1 pela Ligier. O time francês era impulsionado com motores Renault – o melhor da categoria à época -, o que ajudou Mark a conquistar grandes resultados. No fim de 1993, tinha 10 pontos, com destaque para os terceiros lugares na África do Sul e na Alemanha.

Em 1994, nova mudança. Porém, diante da reestruturação da Tyrrell, muito se esperava daquela temporada. Nas quatro primeiras etapas, porém, o azar perseguiu Blundell. Enquanto seu companheiro na escuderia, Ukyo Katayama, obteve dois quintos lugares – no GP do Brasil, em Interlagos, e no GP de San Marino, em Imola -, Mark abandonou três corridas e só completou uma – foi nono no Autódromo Enzo e Dino Ferrari. Sem ponto algum na tabela de classificação, o inglês queria virar o jogo na disputa interna no time de Ken Tyrrell. Porém, se depararia com um competitivo Katayama, que atravessava sua melhor fase na categoria.

Nas primeiras quatro etapas de 1994, Blundell foi superado pelo companheiro Katayama

Nas primeiras quatro etapas de 1994, Blundell foi superado pelo companheiro Katayama

Em Montmeló, ainda se vivia o luto das mortes de Ayrton Senna (Williams) e Roland Ratzenberger (Simtek). Diante dos frequentes acidentes, a Associação dos Pilotos de Grandes Prêmios (GPDA) exigiu a instalação de uma chicane temporária (com barreira de pneus) na Curva Nissan. Com a ameaça de greve, a FIA acatou o pedido. Porém, não impediu que dois acidentes ocorressem na pista espanhola. Na sexta, Bertrand Gachot (Pacific) atingiu os pneus. O belga, contudo, escapou ileso do impacto. No sábado, Andrea Montermini (Simtek) perdeu o controle de seu bólido na entrada da Reta dos Boxes. O forte choque destruiu seu Simtek, e o italiano fraturou seus dois pés e sofreu traumatismo craniano.

Em meio ao fantasma dos fortíssimos acidentes, Blundell tratou de acelerar em Montmeló. Na sexta, o inglês anotou o oitavo melhor tempo do dia, com 1m25s863, 1s154 mais veloz que Katayama, 15º com 1m27s017. No sábado, porém, Ukyo deu o troco em Mark. O japonês ficou com a 10ª posição no grid, com 1m23s969, superando o britânico por exímios 12 milésimos. Blundell teve que se contentar com o 11º tempo – 1m23s981 -, a 2s073 de Michael Schumacher, o pole position do GP da Espanha. O novo triunfo de Katayama no duelo interno da Tyrrell incomodou Mark, que fez de tudo para superar o nipônico nos treinos. Diante disso, o inglês sabia: era tudo ou nada na prova.

Na largada do GP da Espanha de 1994, Mark escapou do incidente protagonizado por Berger e Barrichello

Na largada do GP da Espanha de 1994, Mark escapou do incidente protagonizado por Berger e Barrichello

A corrida

Montmeló amanheceu com um dia ensolarado. Melhor cenário para a Fórmula 1, impossível. Isso pareceu inspirar Blundell. Logo na largada, um toque entre Gerhard Berger (Ferrari) e Rubens Barrichello (Jordan) causou uma enorme confusão. Quem levou a pior foi o austríaco, que caiu para o 12º lugar. Outro prejudicado com o choque entre Berger e Barrichello foi Katayama, que despencou para 15º. Mark, por sua vez, escapou do incidente e subiu para a 10ª posição. Depois disso, porém, a etapa espanhola se tornou enfadonha. Não havia ultrapassagens. Uma grande fila indiana se formou. Mark seguiu no top 10 até a volta 15, quando Mika Hakkinen (McLaren) e David Coulthard (Williams) iniciaram a primeira fase de parada para troca de pneus e reabastecimento.

Na volta 18, Blundell se viu pela primeira vez na zona de pontuação. Graças aos pit stops de Eddie Irvine (Jordan), Martin Brundle (McLaren) e JJ Lehto (Benetton), o britânico da Tyrrell figurou em quinto lugar. Contudo, na passagem seguinte, foi para os boxes. No retorno à pista, Mark se encontrava em nono. Com o abandono de Heinz-Harald Frentzen (Sauber) na volta 21, por problemas no câmbio de seu bólido, Blundell recuperou o oitavo lugar. Três voltas depois, Gianni Morbidelli (Footwork) deixou a prova, fazendo com que Mark ascendesse para a sétima posição. Ali, o inglês permaneceu até a volta 36, quando realizou seu segundo pit stop.

O inglês da Tyrrell mostrou regularidade e contou com os abandonos dos rivais para ganhar posições

O inglês da Tyrrell mostrou regularidade e contou com os abandonos dos rivais para ganhar posições

Ao retornar à pista, Blundell estava em nono. Com a parada de boxes de Jean Alesi (Ferrari), na volta 38, Mark subiu para oitavo. Duas voltas depois, Barrichello, com problemas de câmbio em seu Jordan, abandonou a corrida em Montmeló, elevando o inglês ao sétimo posto. Com o pit stop de Irvine, na volta 42, o piloto da Tyrrell voltou a figurar no top 6. Como não ia mais retornar aos boxes, Blundell percebeu que era possível pontuar na etapa espanhola. Porém, o que aconteceu a partir dali estava muito além dos planos do britânico…

Na volta 49, Hakkinen viu o motor Peugeot de seu McLaren explodir, o que forçou o finlandês a abandonar a prova. Cinco voltas depois, foi a vez do motor Ford de Lehto quebrar. Com o abandono dos finlandeses, Mark estava na quarta posição. À frente dele, apenas Damon Hill (Williams), Michael Schumacher (Benetton) e Martin Brundle. O quarto lugar já iria satisfazer Blundell. Todavia, na volta 59, um problema na transmissão de seu McLaren tirou Brundle da rota do pódio. A seis voltas da bandeira quadriculada, Mark herdou o terceiro lugar.

O pódio em Montmeló-1994 foi o terceiro e último da carreira de Blundell

O pódio em Montmeló-1994 foi o terceiro e último da carreira de Blundell

A vitória ficou com Hill, que obteve o quarto triunfo de sua carreira em Montmeló. Damon aproveitou-se dos problemas de Schumacher, que recebeu a bandeirada apenas com a quinta marcha. Blundell cruzou a linha de chegada com mais de 1 minuto de desvantagem para Michael. Ainda assim, foi o único a completar a etapa na mesma volta que os dois primeiros colocados. Festa na Tyrrell, que celebrou o enorme feito de Mark, que obteve, na Espanha, seu terceiro pódio na F1. Coincidentemente, assim como a escuderia de Ken Tyrrell, foi o último top 3 de sua trajetória na categoria máxima do automobilismo.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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