EUA-1989: em Phoenix, Danner ressurge das cinzas e é quarto

Largando na 26ª e última posição, Danner carregou seu Rial a um incrível quarto lugar no GP dos Estados Unidos

Largando na 26ª e última posição, Danner carregou seu Rial a um incrível 4º lugar no GP dos EUA

Segundo a mitologia grega, a fênix é um pássaro que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas. Outra característica é sua força, que a faz transportar cargas muito pesadas em voo – há lendas em que chega a carregar elefantes. A Rial não foi propriamente um elefantídeo na temporada de 1989 da Fórmula 1, mas seu modelo ARC2 era um fardo para o experiente Christian Danner. Porém, justamente na cidade de Phoenix, a carreira do alemão ressurgiu de maneira surpreendente. Na primeira etapa da categoria máxima do automobilismo disputada nas ruas da capital do Arizona, Danner ignorou o fortíssimo calor, e saiu da última posição do grid para obter o quarto lugar no GP dos Estados Unidos daquele ano.

Foi um feito enorme da Rial, que repetia a façanha do ano anterior em solo norte-americano – no GP dos Estados Unidos de 1988, em Detroit, Andrea de Cesaris também levou o time ao quarto posto. Contudo, diferentemente daquela temporada, o carro da equipe não tinha potencial para conquistar resultado algum. Se em 1988, o bólido era veloz, mas sucumbia à falta de combustível aos fins das etapas, em 1989 se revelava literalmente uma carroça. Christian frequentava as últimas posições do grid, enquanto seu companheiro, o também germânico Volker Weidler, não superava nenhuma pré-qualificação.

Campeão da F-3000 em 1985, Danner não se consolidou na F1

Campeão da F-3000 em 1985, Danner não se consolidou na F1

Apesar das dificuldades que viria a encarar na Rial em 1989, Danner viu na escuderia sua última chance na Fórmula 1. Quando foi convidado por Gunther Schmid para guiar um de seus carros, Christian já tinha 32 GPs em seu cartel. Nascido em 4 de abril de 1958, em Munique, ingressou na categoria em 1985, credenciado pela conquista da Fórmula 3000 Internacional daquele ano. Pela Zakspeed, fez duas etapas, mas abandonou em ambas. No ano seguinte, o alemão atuou pela Osella e pela Arrows – nesta última, obteve um ponto, com o sexto lugar no GP da Áustria, em Osterreichring.

Em 1987, retornou para a Zakspeed. Foi um verdadeiro fiasco: dos 15 GPs que participou, completou apenas seis e não marcou pontos. Além disso, a carreira de Danner foi manchada pela exclusão do GP de Mônaco daquele ano. O alemão foi considerado culpado por provocar um grave acidente com Michele Alboreto (Ferrari) nos treinos para a etapa do Principado (ver vídeo abaixo). Pela primeira vez na Fórmula 1, um piloto acabou excluído de um fim de semana de corrida por ‘mau comportamento’ na pista. Marginalizado, Christian não teve oportunidades para correr em 1988.

Com a trajetória estagnada no automobilismo, correr na Rial era tudo ou nada para o germânico. Entretanto, logo Danner percebeu que estava sentado numa cadeira elétrica. Das quatro primeiras etapas do Mundial de 1989, Christian participou de apenas duas (Brasil e México), não se classificando para os outros dois GPs (San Marino e Mônaco). A quinta prova da temporada seria uma novidade para todos no ‘circo’: o GP dos Estados Unidos deixava Detroit e migrava para as ruas de Phoenix. Seria nesse cenário desconhecido para os pilotos que Danner teria uma especial experiência – a de deixar o limbo da Fórmula 1.

Debaixo de muito sol, Christian penou para fazer seu Rial andar na sexta-feira de treinos. No fim do dia, anotou o 26º tempo entre os 30 que participavam das sessões qualificatórias, com o tempo de 1m35s453. No sábado, o alemão melhorou sua marca, mas estava ameaçado de ficar fora da etapa. Danner encarava um duelo particular com Olivier Groulliard (Ligier). No fim do treino, Grouillard anotou 1m34s153, insuficiente para tirar a 26ª e última posição de Christian, que fez 1m33s840. A marca do germânico era 3s740 mais lenta que a de Ayrton Senna (McLaren), pole em Phoenix com o tempo obtido na sexta (1m30s108).

Christian sofreu para colocar seu carro no grid; já Weidler sequer passou pela pré-classificação

Christian sofreu para colocar seu carro no grid; já Weidler sequer passou pela pré-classificação

Danner, enfim, estava garantido no grid. Contudo, sabia que o calor incessante do desértico estado do Arizona, no auge do verão norte-americano, castigaria equipamentos e pilotos na corrida. Previa-se que, em decorrência das altas temperaturas, muitas quebras aconteceriam. Mal sabia Christian que passaria por uma prova de resistência naquele domingo, 4 de junho de 1989. E melhor: sobreviveria a todos os percalços.

A corrida

Quando a largada foi dada em Phoenix, Danner não imaginava que figuraria na zona de pontuação

Quando a largada foi dada em Phoenix, Danner não imaginava que figuraria na zona de pontuação

Na largada, Danner superou Luis Perez-Sala (Minardi) e passou para o 25º lugar. Na volta 4, Phillipe Alliot (Lola) escapou da pista e deixou a prova, colocando o alemão da Rial em 24º. Na volta 7, um acidente envolvendo Derek Warwick (Arrows) e Andrea de Cesaris (Dallara) tirou o inglês da corrida e colocou o italiano em último. Dessa forma, o germânico assumiu a 22ª posição. Na passagem seguinte, Mauricio Gugelmin (March) foi aos boxes, e Christian passou para a 21ª colocação. Na volta 10, Alessandro Nannini (Benetton) se retirou com dores no pescoço, decorrentes de um acidente no warm up. Assim, o piloto da Rial subiu para o 20º lugar.

Sem rendimento para acompanhar Jonathan Palmer (Tyrrell), Danner se consolidou na 20ª posição. Dali, só sairia se quebras acontecessem. E elas ocorreriam aos montes. Na volta 17, Michele Alboreto (Tyrrell) abandonou com o câmbio quebrado – mesmo problema que vitimou Ivan Capelli (March) na volta 22. Sem os italianos, Christian foi para 18º. Também na 22, porém, o alemão já levaria uma volta do líder Senna. Retardatário, o piloto da Rial não percebeu a aproximação do primeiro colocado, e atrapalhou Ayrton. Quando aplicou a volta, o brasileiro da McLaren gesticulou bastante contra Danner (ver vídeo abaixo).

Senna à parte, a corrida de Christian era contra si mesmo. Levar aquele carro até o fim seria a glória, ainda mais com a quantidade de rivais derrotados pelo calor do Arizona. Com o pit stop de Thierry Boutsen (Williams), na volta 23, Danner subiu para 17º. Na passagem seguinte, Satoru Nakajima (Lotus) deixou a corrida com problemas no acelerador, e o alemão passou para 16º. Na volta 27, Pierluigi Martini (Minardi) sofreu um superaquecimento em seu equipamento, sendo obrigado a se retirar. Duas voltas depois, Nigel Mansell (Ferrari) encarou problemas no alternador de seu bólido e também ficou pelo caminho. Na 30, foi a vez de Stefano Modena (Brabham) sucumbir ao calor e ir para os boxes. Naquela altura, Danner era o 13º.

O acaso continuou derrubando um a um. Na volta 34, Senna, com problemas eletrônicos, parou nos boxes e despencou na classificação. Na passagem seguinte, Stefan Johansson (Onyx) fez pit stop e foi superado por Danner. Na 36, Christian ultrapassou Gabriele Tarquini (AGS), e apareceu pela primeira vez no top 10 em Phoenix. O alemão prosseguiu em 10º até o abandono de Martin Brundle (Brabham), na volta 44, por problemas nos freios. Com os pit stops de Nelson Piquet (Lotus) e Johnny Herbert (Benetton), na 46, Danner assumiu a sétima colocação.

Um a um, os rivais ficavam pelo caminho. Enquanto isso, o alemão da Rial ganhava posições

Um a um, os rivais ficavam pelo caminho. Enquanto isso, o alemão da Rial ganhava posições

Na volta 50, Christian foi superado por Johansson, mas com o abandono do sueco, por vazamento, na passagem seguinte, recuperou o sétimo posto. Ali se manteve até a volta 53. Naquele momento, Alex Caffi (Dallara), o grande personagem da prova de Phoenix – uma vez que superou a pré-classificação e chegou a andar em segundo na corrida -, se chocou com o ‘companheiro’ De Cesaris quando ia aplicar uma volta nele. Com a presepada da Dallara, Danner surgiu num incrível sexto lugar, e da zona de pontuação não sairia mais.

Na volta 61, Palmer fez seu pit stop, e o alemão da Rial passou para a quinta posição. Na passagem seguinte, Gerhard Berger (Ferrari) abandonou com problemas no alternador de seu bólido. Foi o que bastou para Christian figurar na quarta colocação. Encerrado no limite das 2h, o GP dos Estados Unidos teve 75 das 81 voltas previstas, e foi vencido por Alain Prost (McLaren), com Riccardo Patrese (Williams) em segundo e Eddie Cheever (Arrows) em terceiro. Com uma volta de desvantagem para Prost, Danner completou a prova exausto, mas ciente de que tinha feito história. Foi a melhor corrida de sua carreira, enquanto a Rial apareceu na zona de pontos pela segunda vez em sua história.

Fiscais celebram Danner pelo quarto lugar: resultado que jamais seria repetido

Fiscais celebram Danner pelo quarto lugar: resultado que jamais seria repetido

Contudo, nem Christian, tampouco a escuderia, repetiriam o sucesso de Phoenix na categoria máxima do automobilismo. O alemão se irritou com os frequentes fracassos do time, que não conseguia sequer se qualificar para o grid, e deixou a equipe após o GP de Portugal, no Estoril. Sem planejamento, a Rial preferiu encerrou suas atividades após o GP da Austrália, em Adelaide. Apesar do desfecho melancólico das trajetórias de piloto e equipe, por um instante, Christian Danner e Rial voaram como uma fênix na Fórmula 1. Justamente em Phoenix-1989…

Advertisements

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em AGS, Alex Caffi, Andrea de Cesaris, Christian Danner, Dallara, Estados Unidos, Gabriele Tarquini, Ivan Capelli, Jonathan Palmer, Ligier, Luis Perez-Sala, March, Mauricio Gugelmin, Minardi, Olivier Grouillard, Onyx, Phoenix, Pierluigi Martini, Rial, Stefan Johansson, Tyrrell, Volker Weidler, Zakspeed. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s