EUA-Oeste-1983: Johnny Cecotto, o desbravador venezuelano

Em sua segunda corrida na carreira, Johnny Cecotto obteve o sexto lugar em Long Beach: ponto histórico

Em seu 2º GP, Cecotto obteve o 6º lugar com um Theodore: 1º ponto do automobilismo da Venezuela

Um pontinho para um piloto, mas um grande passo para o automobilismo venezuelano. Assim pode ser considerado o feito de Johnny Alberto Cecotto Persello no GP dos Estados Unidos-Oeste de 1983, disputado no circuito de rua de Long Beach, na California. Ao conquistar o sexto lugar em sua segunda corrida na carreira, obteve o primeiro ponto da história da Venezuela na Fórmula 1. A bordo de um medíocre Theodore, Cecotto se livrou de diversos acidentes e figurou no top 5, mas só assegurou um lugar na zona de pontuação após o abandono de Riccardo Patrese (Brabham) a três voltas do fim da corrida. Foi um desfecho especial para Johnny, que teve seu auge na categoria máxima do automobilismo em 27 de março de 1983. Depois daquele dia, nunca mais terminou no top 6.

Cecotto não foi o primeiro piloto venezuelano na Fórmula 1. Em 7 de fevereiro de 1960, Ettore Chimeri disputou o GP da Argentina, em Buenos Aires. Com um Maserati 250F, o sul-americano abandonou na volta 21, por “desgaste físico” – o calor portenho acabou por vitimar Chimeri. Foi a única participação de Ettore, que morreria 20 dias depois, num acidente em prova automobilística em Havana (Cuba). Somente 23 anos depois, a Venezuela voltaria a figurar no grid. E com Johnny, um piloto cuja primeira paixão não estava sobre quatro rodas, mas sim sobre duas – antes de ingressar no automobilismo, trilhou vitoriosa carreira na motovelocidade.

Antes de ingressar no automobilismo, Cecotto conquistou dois titulos mundiais na motovelocidade: nesta imagem, em 1975, em Paul Ricard

Antes de ingressar na F1, Cecotto (aqui, em 1975) conquistou dois títulos mundiais na motovelocidade

Nascido em 25 de janeiro de 1956, Cecotto ingressou cedo no automobilismo. Aos 18 anos, já era bicampeão nacional de 250cc (1973 e 1974), o que o incentivou a partir para as disputas internacionais. Em 1975, Johnny assombrou o planeta ao conquistar o título mundial das 350cc aos 19 anos, tornando-se, instantaneamente, um herói na Venezuela. Cecotto voltou a ser campeão do mundo em 1978, quando venceu o Mundial de 750cc. Reconhecido internacionalmente após mais uma conquista, o sul-americano seguiu na batalha. Porém, sofria com as seguidas lesões ocasionadas por quedas nas competições. Em 1980, decidiu deixar as motos, mas não a velocidade: migrou para os monopostos.

Cecotto disputou três temporadas na Fórmula 2. Em 1980, não pontuou. No ano seguinte, obteve um quarto lugar como melhor resultado, terminando o ano numa tímida 14ª colocação. Mas foi em 1982 que o venezuelano brilhou. Na equipe March, venceu três corridas e obteve 56 pontos – mesma pontuação que seu companheiro de time, o italiano Corrado Fabi. Todavia, no critério de desempate, Corrado ficou com o título da temporada, e Johnny teve que se consolar com o vice-campeonato.

Cecotto estreou na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1983, em Jacarepaguá:  um discreto 14º lugar

Cecotto estreou na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1983, em Jacarepaguá: um discreto 14º lugar

Ainda assim, o bom desempenho fez com que as portas da Fórmula 1 se abrissem para o sul-americano. A Theodore, que havia abandonado em seis de suas sete participações em 1982, decidiu formar um time com pilotos da América do Sul para 1983. Além de Cecotto, contaria com o colombiano Roberto Guerrero, que disputou a temporada anterior pela Ensign. A dupla fez sua primeira corrida no ano no GP do Brasil, em Jacarepaguá. Johnny chegou a figurar em nono, mas teve problemas na parte final da prova e finalizou em 14º, enquanto Roberto não completou a etapa.

Após a estreia conturbada, o venezuelano e o colombiano embarcaram para Long Beach, palco da segunda etapa do Mundial. Na sexta-feira de treinos, a Theodore mostrou rápida adaptação ao circuito, o que resultou em bons resultados para seus pilotos – Cecotto foi o sexto melhor do dia, com 1m29s559, e Guerrero, o oitavo, com 1m29s585. No sábado, porém, tudo deu errado para a escuderia: Johnny não conseguiu melhorar seu tempo, e Roberto perdeu a marca que lhe renderia o oitavo lugar. Conclusão: a dupla despencou na classificação ao permanecer com os tempos de sexta. O venezuelano ficou com o 17º posto no grid, e o colombiano, com o 18º.

Na largada, Johnny foi conservador e se manteve em 18º

Na largada em Long Beach, Johnny Cecotto (com seu Theodore nº 34) foi conservador e se manteve em 17º

A corrida

Se o sábado foi uma decepção, o que esperar do domingo? Com esse questionamento, Cecotto e Guerrero foram para a largada do GP dos EUA-Oeste. Em um dia ensolarado, a dupla da Theodore, com os pneus duros da Goodyear, imaginava fazer a prova sem parar nos boxes. Após o sinal verde, o venezuelano se manteve em 17º. Porém, na volta 2, foi superado por Andrea de Cesaris (Alfa Romeo), caindo para 18º.  Na volta 5, retomou o 17º posto após se aproveitar de uma escapada de Nigel Mansell (Lotus). Na passagem seguinte, superou Mauro Baldi (Alfa Romeo) para assumir o 16º lugar.

Quem também partiu para cima de Baldi foi Guerrero, que também executou a ultrapassagem sobre o italiano na volta 6. Em 17º, o colombiano passou a pressionar o venezuelano. Na volta 9, Roberto tomou o 16º lugar de Johnny. Na passagem seguinte, De Cesaris deu uma escapada, o que devolveu devolveu a posição a Cecotto. Naquele instante, porém, ele já era pressionado por John Watson e Niki Lauda – os pilotos da McLaren largaram em 22º e 23º lugares, respectivamente. Tanto o norte-irlandês quanto o austríaco superaram o venezuelano. Todavia, com o abandono de Derek Warwick (Toleman) na volta 11, Johnny seguiu em 17º.

Cecotto à frente de Guerrero em Long Beach: sul-americanos formavam a dupla da Theodore

Cecotto à frente de Guerrero em Long Beach: sul-americanos formavam a dupla da Theodore

Na volta 16, um problema no turbo fez com que Alain Prost (Renault) parasse nos boxes. Com a parada do francês, Cecotto subiu para 16º. Na passagem seguinte, foi a vez de Elio de Angelis (Lotus) perder rendimento e ir para o pit, colocando o venezuelano em 15º. Johnny permaneceu ali até a volta 24. Naquele instante, superou Guerrero. Na mesma passagem, Michele Alboreto (Tyrrell) se envolveu em um acidente e foi para o fim do pelotão. Dessa forma, Cecotto era o 13º.  Na volta 25, René Arnoux (Ferrari) e Eddie Cheever (Renault) se enroscaram, e o venezuelano alcançou o 11º lugar.

Na volta 26, Keke Rosberg (Williams) tentou uma insana ultrapassagem sobre o líder Patrick Tambay (Ferrari). Como resultado, os dois deixaram a prova. Na mesma passagem, Alan Jones (Arrows), que retornava ao ‘circo’ em Long Beach após mais de um ano longe do cockpit, caiu para último. Na 27, foi a vez de Jean-Pierre Jarier (Ligier), então segundo colocado, abandonar a etapa. Diante de tantas ocorrências, Johnny se viu em sétimo, o que o animou a partir para cima dos rivais. Na volta 30, Cecotto superou Danny Sullivan (Tyrrell) e ingressou na zona de pontos. Duas voltas depois, ultrapassou Marc Surer (Arrows) e assumiu um impressionante quinto lugar. À frente do sul-americano, apenas Jacques Laffite (Williams), Riccardo Patrese (Brabham), Lauda e Watson.

O venezuelano enfrentou problemas com os pneus da Goodyear e viu seu ritmo cair: 6º lugar caiu no colo

O venezuelano enfrentou problemas com os pneus da Goodyear e viu seu ritmo cair: 6º lugar caiu no colo

Johnny permaneceu no top 5 até a volta 54. Já com problemas de pneus, o venezuelano não resistiu ao ataque de Cheever e caiu para o sexto lugar. Três voltas depois, deixou a zona de pontos ao ser superado por Arnoux. Na volta 60, foi a vez de Surer ultrapassar Cecotto, que caiu para oitavo. Faltavam 15 voltas para a bandeira quadriculada, e o sonho de pontuar parecia cada vez mais distante. Entretanto, a sorte voltou a sorrir para o venezuelano da Theodore. Na volta 68, Cheever deixou a disputa em razão da quebra da caixa de câmbio de seu Renault. Quatro voltas depois, Patrese, com problemas no turbo, abandonou a prova. Sem o italiano da Brabham, Cecotto herdou o sexto lugar.

A vitória em Long Beach ficou com a McLaren – Watson triunfou após largar em 22º, seguido por Lauda, que saiu em 23º. Arnoux completou o pódio, e Laffite, Surer e Cecotto formaram o top 6. Após o resultado, festa nos boxes da Theodore para Johnny, um esportista que teve como missão ultrapassar barreiras – seja numa moto, seja num monoposto…

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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