Austrália-2014: Daniil Kvyat tira marca de precocidade de Vettel

Daniil Kvyat entrou para a história da Fórmula 1: dois pontos que desbancaram recorde de Vettel

Daniil Kvyat entrou para a história da Fórmula 1: dois pontos que desbancaram recorde de Vettel

Desde 16 de março de 2014, Ufa, capital do Bashkortostão, república integrante da Federação Russa, passou a fazer parte do mapa histórico da Fórmula 1. Foi nesta cidade que, em 26 de abril de 1994, nasceu Daniil Vyacheslavovich Kvyat. Mal sabia a mãe daquele bebê que, dali a menos de duas décadas, seu filho estaria no grid da categoria máxima do automobilismo. Entre seu nascimento e o último domingo, 19 anos, 10 meses e 18 dias se passaram. Tempo suficiente para o jovem obter a nona colocação no GP da Austrália de 2014, disputado em Melbourne, e quebrar a marca de um certo Sebastian Vettel por 27 dias – o alemão, a bordo de um BMW, foi oitavo lugar no GP dos Estados Unidos de 2007, em Indianapolis, aos 19 anos, 11 meses e 14 dias.

Os dois pontos conquistados no circuito de rua de Albert Park, a bordo de uma Toro Rosso, coroaram um fim de semana muito positivo para o russo. Logo em sua estreia como piloto oficial, Kvyat levou seu STR9 ao Q3, a parte final do qualificatório – debaixo de chuva, Daniil conquistou o oitavo lugar no grid. Na corrida, disputada em pista seca, mostrou-se constante, e por pouco não superou seu companheiro de equipe, o francês Jean-Eric Vergne. O bom desempenho em Melbourne fez com que não restasse dúvida: a Red Bull (leia-se o ‘todo-poderoso’ Helmut Marko) fez uma ótima opção ao colocá-lo em sua equipe satélite.

A partir de 2010, a carreira do russo contou com o fundamental apoio da Red Bull

A partir de 2010, a carreira do russo contou com o fundamental apoio da Red Bull

Para entender como um adolescente foi escolhido para a Toro Rosso, é necessário conhecer um pouco mais sobre a carreira de Daniil. Como todo piloto que se preza, Kvyat começou no kart. Tinha apenas oito anos. Após obter vitórias em competições na Rússia, o piloto imigrou para a Itália em 2006, onde baseou sua trajetória. Em 2009, foi terceiro no Campeonato Europeu da categoria KF3 e vice-campeão na WSK International Series. Os bons resultados no kart levaram o piloto a ser apoiado pela Red Bull já no ano seguinte, quando partiu para os monopostos. Em 2010, competiu na Fórmula BMW. No Campeonato Europeu da categoria, ficou com um modesto 10º lugar na classificação, enquanto no Campeonato do Pacífico, conquistou duas vitórias.

Em 2011, atuou em três campeonatos. No início do ano, competiu na Toyota Racing Series, na Nova Zelândia. Depois, na Fórmula Renault 2.0, foi vice-campeão da divisão Norte-Europeia e terceiro na Eurocup. Em 2012, permaneceu na Fórmula Renault 2.0, onde foi campeão da divisão Alpes e vice da Eurocup. Em 2013, teve grandes desempenhos na Fórmula 3 Europeia e na GP3 – nesta última, sagrou-se campeão da temporada. O título o credenciou para a vaga deixada por Daniel Ricciardo na Toro Rosso – o australiano substituiu o compatriota Mark Webber, que se retirou da F1 naquele ano. Em outubro de 2013, a decisão foi anunciada: Kvyat guiaria para o time de Faenza em 2014.

Na sexta-feira, Kvyat teve o primeiro contato com o circuito de Melbourne: um discreto 16º lugar no dia

Na sexta-feira, Kvyat teve o primeiro contato com o circuito de Melbourne: um discreto 16º lugar no dia

Daniil desembarcou em Melbourne ansioso pela estreia, que aconteceria em terreno desconhecido. “Nunca pilotei em Albert Park, mas já assisti muitas corridas lá e analisei muitas imagens on-board, então tenho uma ideia do que esperar. A pista é diferente e parece ser traiçoeira”, observou. Além da ansiedade, havia uma preocupação no ar: o fraco desempenho da Toro Rosso durante a pré-temporada. A equipe enfrentou diversos problemas com o novo motor turbo da Renault. “Foram só seis dias no carro durante os testes de inverno. Este ano ninguém tem ideia do que esperar, como vimos nos testes em Jerez e em Sakhir”, salientou Kvyat.

Na pista, o russo tratou de mostrar serviço. Na primeira sexta-feira como piloto oficial, Daniil tratou de ganhar o máximo de conhecimento do traçado australiano, e terminou satisfeito com seu dia – apesar de anotar apenas o 16º melhor tempo. “Este foi, com certeza, um bom início para o meu primeiro fim de semana de corrida. Nós não focamos muito na performance, mas completamos muitas voltas, o que foi realmente importante. Eu não estava bem certo sobre o que esperar dos pneus, especialmente do macio. Mas nós coletamos muitas informações e, definitivamente, temos um panorama melhor para o resto do fim de semana”.

A chuva que caiu no sábado veio em boa hora para Daniil: Q3 e oitavo lugar no grid

A chuva que caiu no sábado veio em boa hora para Daniil: Q3 e oitavo lugar no grid

O know-how adquirido na sexta foi por água abaixo no sábado – literalmente. A chuva que assolou Melbourne provocou uma verdadeira confusão nos treinos que definiram o grid para o GP da Austrália. Bom para a Toro Rosso, que se aproveitou da estratégia e da melhor utilização dos pneus para pista molhada para colocar tanto Kvyat quanto Vergne no Q3. No fim, o russo ficou com 1m47s368, conquistando o oitavo lugar no grid. Já o francês marcou 1m45s864, ficando com o sexto lugar – a melhor posição da carreira de Jean-Eric até o momento.

O resultado satisfez Daniil, que bateu três campeões mundiais no treino classificatório: Kimi Raikkonen (Ferrari), Sebastian Vettel (Red Bull) e Jenson Button (McLaren). “É um sentimento muito bom. Foi um bom treino, fiz de tudo e não senti uma grande pressão”, contou o russo. “Há três ou quatro semanas, se dissessem que ficaríamos em sexto e oitavo na classificação, ficaríamos muito felizes. Foi uma pequena surpresa, mas sabíamos que poderíamos competir bem em pista molhada”.

Na largada, Daniil perdeu posição para Raikkonen, mas escapou ileso de acidente na Curva 1

Na largada, Daniil perdeu posição para Raikkonen, mas escapou ileso de acidente na Curva 1

A corrida

Para domingo, porém, nada de água. Sem a pista molhada, a corrida para Kvyat voltava a se tornar uma incógnita. Apesar disso, o russo da Toro Rosso partiu com confiança para a largada. Quando as luzes vermelhas se apagaram, Daniil se deparou com o acidente entre Felipe Massa (Williams) e Kamui Kobayashi (Caterham). O choque dos adversários atrapalhou o novato, que acabou perdendo uma posição para Raikkonen, completando a volta 1 em nono. A partir daí, passou a ser perseguido por outro finlandês, Valtteri Bottas, da Williams. Impulsionado pelo motor Mercedes, o escandinavo superou Kvyat na volta 3. Na mesma passagem, porém, um outro carro equipado com o propulsor alemão quebrou: Lewis Hamilton (Mercedes), que saiu na pole, deixou a etapa australiana.

Na volta 9, Bottas tocou o pneu traseiro direito de seu Williams no muro de concreto localizado na saída da Curva 10, fazendo o composto se deteriorar. Com o problema do finlandês, Daniil passou para o oitavo posto. Os detritos deixados pelo pneu do carro de Valtteri provocaram a entrada do safety car, na volta 12. Nesse momento, surgiu um problema para Kvyat: em sétimo, estava Vergne. À frente, o francês realizou seu primeiro pit stop, obrigando o russo a esperar a troca do companheiro. Quando saiu dos boxes, Daniil se viu na 10ª posição. Na relargada, dada na volta 16, o russo partiu para cima de Adrian Sutil (Sauber), e ultrapassou o alemão na passagem seguinte.

Durante toda a etapa australiana, o russo da Toro Rosso se manteve o top 10

Durante toda a etapa australiana, o russo da Toro Rosso se manteve no top 10

Kvyat se manteve na nona posição até a volta 25, quando voltou a ser pressionado por Bottas. Em franca recuperação, o finlandês novamente superou o russo. Em 10º, Daniil não era incomodado por mais ninguém. Com o início da segunda e derradeira sessão de paradas nos boxes, na volta 32, o russo ascendeu na classificação. Na volta 35, chegou a figurar em sexto, quando realizou seu definitivo pit stop. Com pneus médios, Kvyat retornou na 10ª posição. Atrás dele, estava Sergio Pérez (Force India). Todavia, o mexicano estava muito distante do russo. Dessa forma, passou a acelerar, e por pouco não superou Vergne, que estava imediatamente à sua frente. No fim, assegurou-se na zona da pontuação, ficando a 3s1 do francês.

Festa na Toro Rosso para seus dois pilotos no top 10. Porém, horas depois do término do GP da Austrália, uma desclassificação mexeu com o resultado final e aumentou a festa nos boxes da equipe de Faenza: Daniel Ricciardo (Red Bull) completou a etapa em segundo, mas foi desclassificado por conta de irregularidades no fluxo de combustível em seu carro. A vitória permaneceu com Nico Rosberg (Mercedes), que passou a ser seguido por Kevin Magnussen (McLaren), segundo em sua estreia na Fórmula 1, e por Jenson Button (McLaren). Vergne subiu para oitavo, e Kvyat, para nono.

No final, Kvyat (em segundo plano) pressionou Vergne, mas adotou a cautela e não disputou posição com o francês

No final, Kvyat (em 2º plano) pressionou Vergne, mas teve que poupar combustível e não entrou em disputa

Após a corrida, o russo deu um emocionado depoimento. Ele estava em êxtase. Afinal, tinha consciência de que havia feito história. “Não esperava marcar um ponto na minha estreia, então, foi sensacional. Vivi uma tarde muito intensa, e terminar minha primeira corrida na zona de pontos foi ótimo. Tive um fantástico primeiro final de semana com a equipe, todos trabalharam muito duro, e marcar pontos foi um desfecho perfeito”.

Sobre sua performance, analisou: “O começo foi um pouco bagunçado, mas depois disso eu consegui entrar no ritmo e o carro estava bem, se comparado aos que estavam a nosso redor. Andei perto de JEV (Jean-Eric Vergne) no fim, mas tive de salvar combustível e acabei não atacando-o”, relatou Kvyat, ressaltando que poderia fazer mais. Mesmo assim, seu feito já bastava – afinal, havia entrado para o livro de estatísticas da Fórmula 1 como o mais jovem piloto a anotar pontos na história da categoria. Contudo, deteve essa marca por apenas um ano – no GP da Malásia de 2015, o holandês Max Verstappen destronou Daniil ao terminar em sétimo em Sepang.

Muita festa para Daniil, o piloto mais jovem a pontuar em uma etapa da Fórmula 1

Aos 19 anos, 10 meses e 18 dias, Daniil inseriu seu nome no livro das estatísticas da Fórmula 1

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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