Itália-1976: com show de Peterson, March obtém última vitória

Ronnie em ação no GP da Itália de 1976: uma surpreendente vitória com a March

Ronnie em ação no GP da Itália de 1976: uma surpreendente vitória com a March

Ronnie Peterson vivia um dilema em 1976. Nascido na cidade sueca de Orebro, a 14 de fevereiro de 1944, o piloto tinha 32 anos e uma incerteza: a Lotus, equipe na qual havia conquistado todas as suas sete vitórias até ali, passava por sérios problemas financeiros. Com a falta de investimentos, os resultados se esvaíram. Isso passou a refletir no desempenho do time de Colin Chapman a partir de 1975, quando a equipe não obteve nenhum triunfo. A confiança de Peterson em Chapman acabou após a pífia performance do modelo 77 no GP do Brasil, em Interlagos. Andando no fundo do pelotão, o sueco passou a criticar publicamente a equipe preta e dourada.

Mas a gota d’água foi descobrir que a Lotus, sem dinheiro, oferecia seu cockpit para quem pagasse pela vaga – o time considerava alto o salário do escandinavo. Revoltado, Peterson deixou a Lotus após a etapa brasileira. Assim, um piloto da estirpe de Ronnie teria de recomeçar a carreira em sua plenitude. Porém, todas as vagas do ‘circo’ estavam preenchidas. A solução foi voltar ao passado: o sueco retornou à March, time no qual estreou na Fórmula 1, em 1970, e que deu a ele o vice-campeonato em 1971.

Insatisfeito na Lotus, Peterson voltou para a March, time em que iniciou na F1

Insatisfeito na Lotus, Peterson voltou para a March, time em que iniciou na F1

Cinco anos depois, a parceria era retomada. Porém, a ascendente March de 1971 havia se tornado uma equipe mediana em 1976. Para se ter uma ideia, em 1975, a equipe garantiu seus pontos no Mundial de Construtores em provas interrompidas antes de alcançarem sua metade – na Espanha, por um grave acidente, e na Áustria, pela forte chuva. Dessa forma, muito trabalho esperava por Peterson. A bordo do modelo 761, o sueco penou durante toda a temporada de 1976. Nas nove primeiras etapas em que defendeu a March, nenhum ponto – o melhor resultado foi um sétimo lugar em casa, no GP da Suécia, em Anderstorp.

Na prova seguinte, enfim, o primeiro bom resultado: foi sexto no GP da Áustria, em Osterreichring, chegando, inclusive, a liderar a etapa. No GP da Holanda, em Zandvoort, Peterson obteve uma incrível pole position. Porém, após andar em primeiro por 11 voltas, abandonou a etapa holandesa quando estava em terceiro, na volta 52. A boa sequência na Áustria e na Holanda foi o combustível para Ronnie chegar otimista em Monza, palco do GP da Itália. Também pudera: o sueco era fã incondicional do circuito italiano, onde tinha obtido duas vitórias (1973 e 1974) com a Lotus e um 2º lugar com a March em 1971, quando foi batido por Peter Gethin por exímios 0s010s.

Ronnie anotou o 11º melhor tempo nos treinos, mas herdou a oitava colocação no grid

Ronnie anotou o 11º melhor tempo nos treinos, mas herdou a oitava colocação no grid

Nos treinos, o March 761 mostrou-se mais uma vez consistente numa pista de alta velocidade – Monza trazia características parecidas com Osterreichring e Zandvoort. Depois da chuva de sexta, o sábado teve o classificatório com pista seca, e Peterson anotou o 11º tempo, com 1m42s64. Porém, herdaria o oitavo lugar, após James Hunt (McLaren), Jochen Mass (McLaren) e John Watson (Penske) perderem suas voltas rápidas por, segundo a FIA, terem usado combustível irregular.

O sueco da March ficou a 1s29 de Jacques Laffite (Ligier), que obteve a primeira pole dele e da escuderia na F1, com 1m41s35. Apesar do grande feito de Laffite, todas as atenções em Monza estavam voltadas para Niki Lauda (Ferrari). O austríaco, líder do Mundial, retornava às pistas 42 dias após seu pavoroso acidente no GP da Alemanha, em Nurburgring. Mesmo com queimaduras ainda em fase de cicatrização, e após uma impressionante recuperação de suas vias respiratórias, Lauda alinhou seu carro na quinta posição. Se Niki era protagonista do GP da Itália, Peterson deixaria de ser figurante para brilhar ao lado do ferrarista.

Na largada, Peterson ganhou quatro posições, ficando atrás da dupla da Tyrrell e de Laffite

Na largada, Peterson ganhou quatro posições, ficando atrás da dupla da Tyrrell e de Laffite

A corrida

A chuva voltou a cair sobre Monza na manhã de 12 de setembro de 1976. Todavia, a largada aconteceu com a pista seca, e Ronnie partiu para cima dos adversários. Saindo na oitava posição, o sueco da March completou a volta 1 em quarto, depois de superar Lauda, Carlos Reutemann (Ferrari), José Carlos Pace (Brabham) e Hans Joachim Stuck (March). À frente de Peterson, apenas Laffite e a dupla da Tyrrell – Jody Scheckter e Patrick Depailler. Estabelecido no primeiro pelotão da prova, o escandinavo viu seu March 761 em forma para atacar os adversários.

Na volta 4, superou Jacques, assumindo o terceiro lugar. A partir daí, o sueco iniciou perseguição a Scheckter e Depailler. Logo na volta 5, Ronnie ultrapassou Patrick, passando a ocupar a segunda colocação, colado em Jody. A pressão do escandinavo da March sobre o sul-africano da Tyrrell se intensificou. Na volta 11, o grande momento: Peterson entrou na Reta dos Boxes com mais velocidade e superou Scheckter antes da freada da primeira variante. Pela terceira prova consecutiva, Ronnie colocava a March na liderança de um GP. A grande pergunta era: seria capaz o sueco de assegurar a vitória? A resposta foi dada no mítico circuito de Monza.

Peterson segurava a dupla da Tyrrell com maestria. Na volta 13, Depailler superou Scheckter e passou a acompanhar Ronnie. Inicialmente, o sueco não se importou com a pressão de Patrick. Entretanto, na volta 22, uma chuva forte começou a cair na pista italiana. Alguns pilotos, como Reutemann e Emerson Fittipaldi (Copersucar Fittipaldi), pararam nos boxes para colocar pneus biscoito, mas os líderes permaneceram na pista. A tempestade foi breve e, aos poucos, o traçado ideal foi secando. A partir da volta 30, um trilho foi formado. Naquele momento, Depailler intensificou o ataque sobre Peterson.

Na volta 32, enfim, Patrick tomou uma atitude. Colocou seu Tyrrell número 4 por dentro e superou o sueco da March na freada da Variante della Roggia. Todavia, Ronnie tracionou melhor na chicane, e deu o troco no francês. Foi o momento mais belo do GP da Itália. Depois disso, Peterson não foi mais incomodado por Depailler. O francês ainda acompanhava o sueco, mas, a partir da volta 45, teve problemas com o motor Ford-Cosworth de seu Tyrrell. Com isso, Patrick foi superado por Clay Regazzoni, Laffite e… Lauda! O austríaco, após largar mal, resistiu bravamente à chuva e estava em quarto.

Regazzoni bem que tentou tirar a vitória de Peterson, mas Ronnie, na volta 50, cravou a melhor volta da corrida com o tempo de 1m41s3. Foi o aviso definitivo para Clay: a vitória tinha dono – Peterson, em uma atuação irrepreensível. Regazzoni foi o segundo, a 2s3 do piloto da March, seguido por Laffite, a 3s do sueco. Lauda, Scheckter e Depailler completaram o top 6. “Desta vez tudo aconteceu perfeitamente, e, após a bandeirada, comecei a me perguntar se eu tinha feito a coisa certa”, admitiu Ronnie, na ocasião.

Peterson celebrou muito no pódio em Monza, ao lado de Regazzoni e Laffite

Peterson celebrou muito no pódio em Monza, ao lado de Regazzoni e Laffite

O sueco fez bem certo: foi a oitava vitória dele na carreira, e sua primeira na March, o time que o revelou na Fórmula 1. Mal sabia ele que aquela seria a última vitória da escuderia na categoria máxima do automobilismo – os outros dois triunfos foram de Jackie Stewart, no GP da Espanha de 1970, e de Vittorio Brambilla, no GP da Áustria de 1975. Uma primeira posição épica, que marcou o auge de Peterson na F1. Em um time que não tinha condições de brigar pelos primeiros lugares, Ronnie foi lá, viu e venceu.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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