Argentina-1956: ‘ajuda italiana’ faz Brasil pontuar com Landi

A bordo do Maserati de número 10, Landi e o italiano Gerino Gerini ficaram com o 4º lugar em Buenos Aires

A bordo do Maserati de número 10, Landi e o italiano Gerino Gerini ficaram com o 4º lugar em Buenos Aires

O dia 22 de janeiro de 1956 pode ser considerado um marco no automobilismo brasileiro. Foi nesta data que, pela primeira vez, um piloto do país pontuou na Fórmula 1. A façanha foi obtida por Francisco Sacco Landi, ou simplesmente Chico Landi. A bordo de um Maserati 250F, ele foi quarto colocado no GP da Argentina, disputado no Autódromo de Buenos Aires. Nascido em 14 de julho de 1907, em São Paulo (SP), o piloto já tinha 48 anos quando obteve 1,5 ponto em solo portenho. Sim, um ponto e meio. À época, quem pontuava era o carro, e não quem o guiava. Landi dividiu os três pontos da quarta colocação com o italiano Gerino Gerini, com quem compartilhou o cockpit de seu Maserati. O paulistano largou na prova argentina, mas quem levou a bandeirada foi o italiano.

A colaboração de Gerini foi decisiva para os primeiros pontos do Brasil na Fórmula 1. Porém, ainda que a parceria ítalo-brasileira da Maserati não surtisse resultado, o País não demoraria muito para ver um outro piloto pontuar: na etapa seguinte, no GP de Mônaco de 1956, Hermano da Silva Ramos, o Nano, obteve o quinto lugar nas ruas do Principado a bordo de um Gordini. Entretanto, ainda que Landi tivesse passado em branco na etapa que abriu a temporada de 1956 da Fórmula 1, já havia deixado sua marca na história do automobilismo brasileiro.

Chico foi o primeiro grande nome do automobilismo brasileiro: desbravador das pistas mundo afora

Desbravador: Chico foi o primeiro grande nome do Brasil no automobilismo

Chico começou no esporte a motor na década de 1920. Em provas oficiais, sua estreia ocorreu em 1934, no circuito da Gávea, no Rio de Janeiro. Em 1935, viria sua primeira vitória de expressão, no circuito do Chapadão, em Campinas (SP). Contudo, seriam seus triunfos na Gávea, conhecido como “Trampolim do Diabo”, que alçariam Landi ao estrelato: no circuito carioca, obteve três vitórias (1941, 1947 e 1948). As diversas conquistas em cenário nacional, e a ida dos argentinos para o automobilismo europeu, impulsionaram Chico, que partiu para o Velho Mundo.

Landi foi o primeiro piloto do Brasil a se aventurar no exterior. Ele não só viu, como venceu: ganhou duas edições do Grand Prix de Bari (Itália) – 1948 e 1952 – com a Ferrari. A prova italiana, que atraía os melhores pilotos do mundo, não fazia parte do calendário da F1. Na categoria máxima do automobilismo, fez sua estreia em 16 de setembro de 1951, no GP da Itália, em Monza, com uma Ferrari. Porém, abandonou logo na volta 1, com problemas de transmissão em seu bólido.

Landi, com o multicampeão Fangio: apoio governamental foi o diferencial na carreira de ambos'

Landi, com Fangio: apoio governamental foi o diferencial na carreira de ambos

Com sua equipe própria, a Escuderia Bandeirantes, Landi se arriscou em outras duas etapas de 1951 – nos GPs da Alemanha, em Nurburgring, e da Espanha, em Pedralbes. Todavia, com um defasado chassi Maserati 4CLT/48, não obteve classificação. Somente em 1952, com um Maserati A6GCM, que Chico colocou sua equipe num grid. E o fez em duas corridas: no GP da Holanda, em Zandvoort, o brasileiro terminou em nono, e no GP da Itália, em Monza, ficou em oitavo. Falhou apenas a classificação para o GP da França, em Rouen.

Em 1953, disputou os GPs da Suíça, em Bremgarten, e da Itália, em Monza. Em ambos, abandonou com problema de câmbio no seu Maserati A6GCM. Sem resultados expressivos, muito por conta da falta de apoio governamental – como recebia o campeoníssimo Juan Manuel Fangio -, Chico deixou a Europa e retornou ao Brasil. Seguiu em competições no País, sempre conquistando bons resultados.

Chico em ação no GP da Argentina: seu carro é o número 10 - acima, à dir.

Chico em ação no GP da Argentina: seu carro é o de número 10 – acima, à dir.

A Fórmula 1 voltaria à carreira de Landi somente em 1956, quando a Maserati convidou o brasileiro para disputar o GP da Argentina, em Buenos Aires. Para a corrida, seria inscrito no carro número 10 da escuderia. Mas havia um adendo: além do brasileiro, constava o nome do italiano Gerino Gerini. O motivo da inscrição do romano foi um só: a idade de Landi, que já tinha 48 anos na ocasião. A fim de assegurar que o modelo 250F da Maserati chegaria até o fim da prova, que teria 3h de duração, o paulistano faria a parte inicial da corrida. Se o desgaste físico abatesse Chico, Gerini o substituiria.

Acordo feito, e o brasileiro partiu para o treino. Na qualificação, anotou 1m57s1, o que lhe rendeu o 11º lugar entre os 13 carros inscritos para a etapa de abertura do Mundial – as equipes inglesas BRM, Vanwall e Connaught não vieram para a América do Sul. O tempo de Landi foi 15s4 mais lento que o de Juan Manuel Fangio (Ferrari), o pole em solo portenho. E largando do final, Chico partiu para a história. Logo no início, Landi superou o belga Olivier Gendebien e alcançou o 10º lugar. A partir daí, o brasileiro da Maserati se segurou no top 10. Na volta 12, Fangio, com problemas mecânicos em seu Ferrari número 30, caiu para o fim do pelotão, o que colocou o brasileiro na nona posição.

Carros alinhados para a largada do GP da Argentina de 1956

Carros alinhados para a largada do GP da Argentina de 1956

Landi só subiria de colocação na volta 25, graças ao abandono de Jose Froilán González (Maserati). Sem o argentino, Chico se manteve em oitavo até a volta 40. Com a retirada do italiano Eugenio Castellotti (Ferrari), o carro 10 do brasileiro passou a figurar na sétima posição. Entende-se que foi naquele momento que o paulistano deixou o cockpit da Maserati, que passou a ser ocupado por Gerini. Não há um registro exato da “passagem de volante” do brasileiro para o italiano – desta forma, não é possível precisar em que instante Gerino assumiu o comando do carro.

O que se sabe é que, na volta 42, o Maserati da dupla Landi-Gerini assumiu o sexto lugar na etapa argentina após o abandono de Carlos Menditeguy (Maserati), que liderava a corrida com boa vantagem sobre Stirling Moss (Maserati). Sem o argentino, Moss assumiu a ponta, seguido por… Fangio! O argentino havia abandonado na volta 22, mas assumiu o cockpit de Luigi Musso (Ferrari) na volta 31 e passou a tirar diferença em relação ao britânico.

Chico ganhou uma posição após a largada na Argentina: prova de resistência

Chico ganhou uma posição após a largada na Argentina: prova de resistência

Na volta 58, o Maserati de Landi e Gerini já figurava na quinta posição, que foi herdada após o acidente que tirou Peter Collins (Ferrari) da corrida. Já o Maestro Fangio assumiu a liderança com o Ferrari de número 34 – originalmente de Musso – na volta 67. Era sinal dos problemas no Maserati de Stirling. Depois de perder a ponta, o inglês foi ultrapassado por Jean Behra (Maserati) na volta 73. Oito voltas depois, o motor da Maserati deixou Moss na mão, e o britânico foi obrigado a deixar a prova. Isso beneficiou Gerini, que passou a ocupar o quarto lugar.

Após o abandono de Moss, o GP da Argentina se definiu. Fangio levou a Ferrari número 34 à vitória. Não só isso: garantiu a Luigi Musso seu único triunfo na Fórmula 1. Além de El Chueco, o pódio em Buenos Aires foi preenchido por Behra, o segundo, e Mike Hawthorn (Maserati), o terceiro. A seis voltas da Ferrari vencedora (Fangio e Musso completaram 98), aparecia Gerini, que levou a Maserati número 10 ao quarto posto. O italiano assegurou pela única vez um lugar na zona de pontos, e permitiu que o Brasil pontuasse pela primeira vez na categoria. Se Landi pontuou, deve o feito, também,

O quarto lugar na Argentina coroou a carreira de Landi, que já tinha 48 anos à época

Quarto lugar coroou a carreira de Landi

Depois do GP da Argentina de 1956, Chico nunca mais correu na Fórmula 1. O grande desbravador do automobilismo brasileiro morreu em 7 de junho de 1989, aos 81 anos, em São Paulo, mas deixou um legado que sempre será exaltado.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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2 respostas a Argentina-1956: ‘ajuda italiana’ faz Brasil pontuar com Landi

  1. Pingback: Chico Landi – GP da Argentina 1956 - Pilotoons

  2. Lauro bezerra diz:

    Parabens por esta recordação do nosso Extraordinária piloto Francisco Landi.O Brasil tem que saber que no passsado tivemos um Crak no volante.Obrigado!!!

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