Inglaterra-1954: Onofre Marimón supera 25 rivais e vai ao pódio

Aprendiz de Juan Manuel Fangio e Jose Froilán González, Marimón deu show em Silverstone-1954

Aprendiz de Juan Manuel Fangio e Jose Froilán González, Marimón deu show em Silverstone-1954

Os talentos formados pelo automobilismo argentino brilharam mundo afora durante a década de 1950. Seguindo a trilha de nomes destacados, como Juan Manuel Fangio e Jose Froilán González, alguns tentaram a sorte na Europa. Mas um, em especial, tinha potencial para ser um vencedor na Fórmula 1, tal qual El Chueco (alcunha de Fangio) e El Toro de los Pampas (apelido de González). Seu nome? Onofre Marimón. Apelido? Pinocho (Pinóquio, em espanhol). Depois de sua estupenda apresentação no GP da Inglaterra de 1954, quando superou 25 carros para ser terceiro lugar, ganhou status de estrela em ascensão. Todavia, seu destino foi cruel. Duas semanas depois do feito na etapa inglesa, faleceu num acidente nos treinos para o GP da Alemanha, em Nurburgring.

Onofre foi o primeiro piloto a morrer na Fórmula 1 (excetuando as 500 Milhas de Indianapolis, que pertencia ao calendário da categoria entre 1950 e 1960), mas deixou como herança o brilho reluzente de sua apresentação em Silverstone, em 17 de julho de 1954. No célebre circuito britânico, o argentino desafiou os riscos da pista molhada e não titubeou, alcançando seu segundo e último pódio na carreira. Aliás, o arrojo, peculiar na escola liderada por Fangio, também era característico em Marimón. Veloz e destemido, o piloto nascido em 19 de dezembro de 1923 em Zárate, na Província de Buenos Aires, se destacou rapidamente nas competições locais, o que impressionou o grande Maestro.

Marimón (em primeiro plano) teve sua carreira apadrinhada por Fangio (à esq. de Onofre)

Marimón (em primeiro plano) teve sua carreira apadrinhada por Fangio (à esq. de Onofre)

Graças a um convite de Juan Manuel, Marimón embarcou para a Europa em 1951. Naquele ano, estreou na Fórmula 1 no GP da França, disputado em Reims, pela Maserati. Abandonou logo na volta 2, com problemas de motor. Em 1952, Onofre retornou para a Argentina, onde disputou provas da Mecânica Nacional, uma competição de monopostos. Naquele ano, não correu na Europa. E isso se deveu muito à retirada da Alfa Romeo, escuderia que deu o título de 1951 para Fangio, e ao grave acidente que o campeão sofreu com seu Maserati na Fórmula 2, em Monza, que o retirou da disputa daquela temporada.

Apenas no ano seguinte, Marimón retomou sua carreira na Europa. Ao lado de El Chueco, correu as 24 Horas de Le Mans pela Alfa Romeo. Na semana seguinte, assumiu como piloto titular da Maserati e não decepcionou. No GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, foi terceiro graças a um abandono de Fangio na última volta. Foi o melhor resultado de Onofre no ano. Depois, foi nono no GP da França, em Reims, e abandonou nas quatro etapas seguintes – Inglaterra, Alemanha, Suíça e Itália.

Foi pela Maserati que Marimón realizou todos os seus 11 GPs na F1

Foi pela Maserati que Onofre Marimón realizou todos os seus 11 GPs na F1

Onofre se manteve na Maserati em 1954, e pela primeira vez faria uma temporada completa de Fórmula 1. Apesar das boas classificações nos treinos, o argentino teve má sorte e abandonou nas três primeiras etapas do ano – Argentina, Bélgica e França. Sem pontuar no ano, a situação pareceu ficar pior para o GP da Inglaterra, quarta etapa do Mundial. Em Silverstone, Marimón sofreu com o atraso da chegada dos carros da Maserati. Sem a preparação devida, se viu na longínqua 28ª posição, com o tempo de 2m02s6. Para se ter uma ideia, Fangio, o pole com a Mercedes, percorreu os 4.711 metros do circuito em 1m45s0, mais de 17 segundos mais rápido que Pinocho.

A corrida

Largada do GP da Inglaterra de 1954: Marimón superou 22 rivais em uma única volta

Largada do GP da Inglaterra de 1954: Marimón superou 22 rivais em uma única volta

Esperar o que em uma corrida em que se larga em 28º? Diante de um público que superlotou Silverstone, Onofre Marimón partiu para um dos mais espetaculares inícios de corrida da história. O argentino da Maserati se aproveitou da chuva leve que caía sobre o circuito e largou determinado a superar quem estivesse pela frente. Em apenas uma volta, Marimón ultrapassou 22 carros (sim, vinte e dois). De 28º, o piloto de 30 anos figurou num impressionante sexto lugar.

A largada foi fundamental para seu desfecho na prova. Na volta 2, chegou a superar Stirling Moss (Maserati) para assumir o quinto lugar, mas, na passagem seguinte, tanto o inglês quanto o francês Maurice Trintignant (Ferrari) ultrapassaram o argentino, que caiu para sétimo. Na volta 4, Onofre deu o troco em Maurice, se recolocando na sexta colocação. A partir daí, Marimón se manteve no top 6, que à época não rendia pontos na classificação. À frente do argentino, estavam Froilán González (Ferrari), Fangio, Mike Hawthorn (Ferrari), Moss e Jean Behra (Gordini).

Onofre Marimón (à dir) se aproveitou de problema com Moss para ficar em terceiro; a vitória ficou com González (à esq)

Marimón (à dir) se aproveitou de problema com Moss para ficar em 3º; a vitória foi de González (à esq)

Marimón ficou em sexto até a volta 54, quando Behra enfrentou problemas de suspensão em seu Gordini e abandonou em Silverstone. Em quinto, mas distante dos rivais, o argentino apostou na regularidade para marcar no Mundial. Além disso, contou com a sorte: a chuva, que aumentou de intensidade, prejudicou Fangio, que despencou na classificação. Na volta 78, Onofre superou seu mentor, assumindo o quarto lugar.

Marimón (com o número 33) aplica volta em Leslie Marr (23), da Connaught: show em Silverstone

Marimón (com o número 33) aplica volta em Leslie Marr (23), da Connaught: potencial em evidência

Mas o melhor estava por vir duas voltas depois: com problemas de transmissão, Moss foi obrigado a abandonar a prova. Com isso, Marimón levou seu Maserati por mais 10 voltas e assegurou o terceiro lugar. De quebra, dividiu a melhor volta da corrida com outros seis pilotos, ao anotar o tempo de 1m50. A vitória ficou com González, seguido por Hawthorn. Com isso, Silverstone viu uma verdadeira festa argentina: entre os quatro primeiros colocados, três pilotos do país sul-americano (González em 1º, Marimón em 3º e Fangio em 4º). Contudo, 14 dias depois do feito na Inglaterra, a celebração do trio argentino virou tragédia, com o desaparecimento de Onofre em Nurburgring.

Fangio consolou González após a confirmação da morte de Marimón em Nurburgring-1954: fim da trinca argentina

Fangio consolou González após confirmação da morte de Marimón em Nurburgring: fim da trinca argentina

Marimón não teve tempo para fortalecer a trinca argentina na Fórmula 1. Ainda assim, Silverstone vivenciou um espetáculo alviceleste nas pistas. O segredo talvez fosse a água do Rio da Prata…

Melhores momentos do GP da Inglaterra de 1954

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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