Brasil-1978: Jacarepaguá delira com pódio de Emerson

Fittipaldi viveu um dia de glória no Rio de Janeiro: segundo lugar foi o auge da Copersucar Fittipaldi na Fórmula 1

Emerson viveu um dia de glória no Rio: segundo lugar foi o auge da Copersucar Fittipaldi na Fórmula 1

Em 1978, Emerson Fittipaldi dava início ao terceiro ano de apostas no sonho brasileiro da Fórmula 1. Se em 1976 e em 1977, o bicampeão anotou pontos esporádicos com a Copersucar Fittipaldi, a expectativa para aquela temporada era a melhor possível. A escuderia brasileira montou um modelo promissor, o F5A, projetado por Dave Baldwin e Giacomo Caliri. O inovador carro, com efeito-solo, estreou já na primeira etapa do Mundial, no GP da Argentina, disputado em 15 de janeiro daquele ano. Porém, Rato enfrentou problemas, e teve que se contentar com o nono lugar.

Duas semanas depois, Fittipaldi disputaria o GP do Brasil pela primeira vez em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Novamente, muitas expectativas – e cobranças – cercavam o time nacional. Mas, daquela vez, as críticas passaram longe do circuito carioca. No 101º GP da sua laureada carreira, Emerson voltou a chorar dentro de um cockpit. O paulistano, nascido em 12 de dezembro de 1946, conquistaria no autódromo do Rio sua “maior façanha na Fórmula 1”, como ele mesmo afirmou: o segundo lugar na etapa brasileira.

Foi o primeiro pódio de Fittipaldi desde o GP dos Estados Unidos de 1975, em Watkins Glen, e o primeiro da história do time brasileiro

Foi o primeiro pódio de Fittipaldi desde Watkins Glen-1975, e o primeiro da história do time brasileiro

Foi o primeiro pódio da história da Copersucar Fittipaldi, e o primeiro de Emerson desde o GP dos Estados Unidos de 1975, em Watkins Glen, quando ele ainda guiava pela McLaren. Foi um feito para ninguém colocar defeito. Ninguém mesmo. Nem mesmo os ufanistas brasileiros poderiam criticar Fittipaldi naquele momento. Foi um verdadeiro “cala a boca” aos críticos mais vorazes do projeto tupiniquim na categoria máxima do automobilismo.

“(O segundo lugar) foi importante para todo mundo entender o trabalho que estamos desenvolvendo, para compreenderem que estamos no caminho certo e precisando, mais do que nunca, de mais apoio e menos críticas. Eu sou muito grato a quem me apoiou, mas não sinto vontade nenhuma de me vingar de quem criticou. Respeito as críticas, mas quero que entendam por que não fui para a Ferrari ou para a Lotus. Entendam que fiz isso por idealismo e não por dinheiro. Entendam a importância de um carro brasileiro na F1”, desabafou Emerson na edição de fevereiro de 1978 da Revista Quatro Rodas.

O bicampeão e seu bólido se adaptaram ao forte calor do verão carioca

O bicampeão e seu bólido se adaptaram ao forte calor do verão carioca

Calor e briga com fiscal

A ansiedade de disputar a primeira prova de F1 em Jacarepaguá ficou em segundo plano quando o bicampeão desembarcou no Rio. Com a prova marcada para janeiro, carros e pilotos sofreram com o forte calor, típico do verão carioca. As equipes foram para o circuito na quinta-feira, uma vez que a etapa estreava no calendário. Logo de cara, Fittipaldi se sentiu à vontade no circuito, terminando o dia em quarto. O panorama da Copersucar Fittipaldi foi mantido nas sessões oficiais de sexta-feira. Emerson voou, alcançando um surpreendente terceiro lugar.

Mas aí veio o sábado. No período da manhã, Fittipaldi testou os pneus Goodyear de seu bólido, e demonstrava confiança, pois andava no ritmo de Carlos Reutemann (Ferrari) e Mario Andretti (Lotus). À tarde, quando o grid se definiria, a evolução do carro brasileiro sofreu um duro golpe: Rato enfrentou problemas em seu Copersucar Fittipaldi. O semieixo traseiro do bólido quebrou, e a equipe trabalhou no conserto durante praticamente toda a sessão. Emerson não melhorou seu tempo. De terceiro na sexta, teve que se consolar com o sétimo lugar no grid. O tempo de Fittipaldi, obtido na sexta, foi de 1m41s50. Os demais melhoraram suas marcas no sábado.

No sábado, Fittipaldi se viu numa confusão com um comissário de pista: safanões em Pulguinha

No sábado, Fittipaldi se viu numa confusão com um comissário de pista: safanões em Pulguinha

Emerson ficou a 1s05 do tempo de Ronnie Peterson (Lotus), o pole com 1m40s45. James Hunt (McLaren) ficou em segundo, seguido por Andretti e Reutemann. “Foi uma pena. Acho que poderia ter mantido minha posição, ou caído apenas uma, o que nao faria diferença muito grande, pois ainda assim largaria na segunda fila. Agora estou bem mais atrás, embora ainda seja um ótimo resultado para quem vinha saindo na 10ª fila ou coisa parecida”, disse o bicampeão, em entrevista publicada na edição de 29 de janeiro de 1978 do jornal O Globo, do Rio de Janeiro.

A lamentação não parou por aí. Após a quebra de seu carro na sessão decisiva, Fittipaldi chegou a dar uns sopapos em Pulguinha, um fiscal de pista que trabalhava em Jacarepaguá. O brasileiro parou seu Copersucar Fittipaldi no lado oposto ao da entrada da pista e pediu aos bandeirinhas que empurrassem o carro. Mario Patti, diretor de prova, orientou que os fiscais não atendessem o bicampeão, pois o regulamento da FIA proibia que os carros fossem empurrados durante a corrida – mas era omisso durante os treinos. Começou uma enorme confusão, e Emerson foi para cima de Pulguinha.

Apesar dos problemas de sábado, Fittipaldi estava confiante com o ritmo do seu carro: mais veloz que a McLaren de Hunt

Apesar dos problemas de sábado, Rato estava confiante com seu ritmo: mais veloz que a McLaren de Hunt

“Foi um erro meu, reconheço, e queria pedir desculpas ao Pulguinha. À noite, custei a pegar no sono, chateado com o que aconteceu. Não devia ter dado aqueles safanões nele, mas no momento perdi a cabeça: foi o último recurso para conseguir levar o carro com segurança aos boxes. E era importantíssimo isso, pois não podia deixar o carro largado no acostamento”, relatou Fittipaldi. Com a irregularidade, a FIA puniu Emerson com uma multa de US$ 2,5 mil.

Os apuros de sábado, entretanto, não influenciaram Emerson e a Copersucar Fittipaldi no domingo. No warm up, o brasileiro se sentiu confortável no cockpit. “Com o tanque cheio, andei colado no Hunt e vi o carro melhor que o McLaren. Quando falei isso ao Teddy Meyer (dono da McLaren), ele riu. Eu disse: ‘na corrida você vai ver'”, contou Rato, em tom premonitório.

Mais de 60 mil pessoas lotaram as arquibancadas de Jacarepaguá para ver Emerson e seu Copersucar Fittipaldi

Mais de 60 mil pessoas lotaram Jacarepaguá para ver Emerson e seu Copersucar Fittipaldi

Com um calor de mais de 30°C, mais de 60 mil pessoas superlotaram as arquibancadas de Jacarepaguá. Era um cenário infernal. Seria uma verdadeira prova de fogo para Fittipaldi e o time brasileiro. Antes de Fittipaldi entrar em seu cockpit, uma surpresa desagradável: Wilsinho Fittipaldi, chefe da escuderia, comunicou o irmão de que o carro estava com problemas de motor. Logo, o carro tão bem testado durante a semana no Rio não seria utilizado no GP do Brasil.

Emerson, então, teve que optar pelo carro reserva para alinhar no grid de Jacarepaguá. Apesar da troca, Rato transmitiu uma boa notícia para Wilsinho: na volta que levava ao grid, Rato avaliou o bólido reserva e avisou que estava em forma como o titular. Logo, a esperança se renovou para o bicampeão e para a escuderia brasileira.

Largada do GP do Brasil de 1978: sétimo no grid, Fittipaldi largou bem e pulou para quinto

Largada do GP do Brasil de 1978: sétimo no grid, Fittipaldi largou bem e pulou para quinto

A corrida

Naquele 29 de janeiro de 1978, o carro amarelo com o número 14 largou bem, pulando para a quinta posição logo na Curva 1. Fittipaldi ultrapassou Patrick Tambay (McLaren) e Gilles Villeneuve (Ferrari), colando em Andretti. Porém, Villeneuve se aproveitou da melhor adaptação dos pneus Michelin ao calor de Jacarepaguá e partiu para cima de Emerson. Na volta 4, o canadense da Ferrari superou o brasileiro da Copersucar Fittipaldi. Mais veloz, Gilles se aproximou de Peterson, o quarto colocado. Fittipaldi, de longe, acompanhou o duelo entre os dois arrojados pilotos.

“Eu sentia que ele (Villeneuve) ia acabar se enroscando com alguém. Então, que não fosse comigo”, afirmou Emerson para a Quatro Rodas. Na volta 8, Gilles e Ronnie disputaram roda a roda a freada para a Curva Sul, com o ferrarista escapando da pista. Dessa forma, Fittipaldi retomou o quinto lugar. Na passagem seguinte, Hunt, com problemas nos pneus desgastados com o calor, despencou na classificação. Isso colocou Rato na quarta posição.

O grande trunfo de Fittipaldi em Jacarepaguá foi resistir ao calor, algo que nem Lotus e McLaren conseguiram

O trunfo de Fittipaldi em Jacarepaguá foi resistir ao calor, algo que nem Lotus e McLaren conseguiram

Na volta 12, o Copersucar Fittipaldi de Emerson parecia melhor adaptado à alta temperatura carioca do que a Lotus. Sofrendo com o calor, Peterson não resistiu, e Fittipaldi superou o sueco. Era incrível: Emerson estava em terceiro em Jacarepaguá. E a posição ficou ainda mais confortável para o brasileiro depois da volta 15, quando Ronnie e Gilles se enroscaram. O sueco abandonou a prova e reclamou bastante do canadense, que seguiu na disputa, mas que abandonaria na volta 35.

Aliás, seria naquele momento que Fittipaldi notaria: estava tirando diferença para Andretti, o segundo colocado em Jacarepaguá. Porém, levou um susto. “Estava a pouco mais de 3s da Lotus e me aproximando de Mario, quando o volante começou a trepidar violentamente. Desisti imediatamente de atacar Andretti, e comecei a me preocupar só com os pneus e o calor”, disse o bicampeão à época. “Meu objetivo passou a ser apenas chegar à frente de Niki Lauda (Brabham), que vinha em quarto”.

Emerson estava em terceiro, quando Andretti começou a ter problemas com o câmbio de seu Lotus

Emerson estava em terceiro, quando Andretti começou a ter problemas com o câmbio de seu Lotus

Emerson administrava o terceiro lugar quando algo lhe chamou a atenção. “Em torno da volta 53, a 10 voltas do fim da corrida, vi o público gritando nas arquibancadas. E entendi que Andretti também deveria estar com problemas”. O brasileiro da Copersucar Fittipaldi acelerou, e encostou no norte-americano da Lotus, que lutava contra a perda da quarta marcha de seu câmbio. Na volta 57, o ápice: Fittipaldi superou Andretti, o piloto com o melhor carro da temporada e que viria a ser o campeão de 1978.

“Quando passei por ele (Mario), começaram as sete voltas mais longas que já dei na vida. O tempo não passava de jeito nenhum, e durante aquela eternidade fiquei ouvindo cada barulhinho do carro, pensando na gasolina que podia acabar, em tudo que podia acontecer. Senti, de novo, tudo que passei no final do GP dos Estados Unidos de 1970, minha primeira vitória na Fórmula 1. Acho que sofri até mais”, relatou o bicampeão à Quatro Rodas.

Extenuado, Rato vibrou como nunca e foi às lágrimas após cruzar a linha de chegada em Jacarepaguá

Extenuado, Rato vibrou como nunca e foi às lágrimas após cruzar a linha de chegada em Jacarepaguá

Fittipaldi estava muito atrás de Reutemann, que dominou a corrida de Jacarepaguá desde o início, mas tinha uma boa vantagem sobre Lauda, que também superou Andretti. A torcida brasileira queria a quebra do argentino da Ferrari para a triunfal vitória de Rato, mas foi em vão: Lole venceu no Rio, com 49s13 de vantagem sobre o segundo lugar, um extenuado e emocionado Emerson, que foi saudado por centenas na pista carioca. Niki ficou em terceiro e Mario, em quarto.

“Quando passei pela bandeirada, não sei explicar o alívio que tive. Uma sensação incrível ver toda aquela torcida vibrando, aquela alegria que há dois anos eu não via. Chorei muito nos boxes, muito mesmo. Para mim, foi muito mais importante esse segundo lugar do que uma vitória em qualquer outro carro, mais do que cada uma das 14 vitórias que tenho na Fórmula 1”, avaliou Fittipaldi à época, sem saber que aquele resultado significaria o auge de sua escuderia, e um de seus últimos momentos de alegria na categoria que o consagrou.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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