Itália-1971: Peter Gethin e seus 10 milésimos de fama

Gethin superou Ronnie Peterson por um triz e entrou para a história da Fórmula 1

Gethin superou Ronnie Peterson por um triz e entrou para a história da Fórmula 1

Em 1968, o célebre artista plástico norte-americano Andy Warhol decretou: “no futuro, todos serão famosos por 15 minutos”. Três anos depois, Peter Gethin reinventou essa frase. Quando cruzou, com o braço erguido, a linha de chegada do GP da Itália de 1971, em Monza, o britânico da BRM fez sua fama: por exímios 0s010, superou Ronnie Peterson (March) e faturou sua primeira e única vitória na Fórmula 1. É, até hoje, a menor diferença entre um primeiro e um segundo colocado na história da categoria. Graças aos seus famosos 10 milésimos, Gethin atingiu o auge de sua carreira em uma épica apresentação.

Nascido em 21 de fevereiro de 1940, em Ewell, na Inglaterra, Peter já tinha mais de 25 anos quando começou no automobilismo. Chegou a correr na Fórmula 3 Inglesa, mas sem sucesso. Em 1969, conheceu Bruce McLaren, que havia recém-criado uma escuderia (uma certa McLaren…). Seria Bruce a dar a primeira oportunidade a Gethin numa categoria de ponta: a Can-Am, de carros protótipos, e disputada na América do Norte. Paralelamente, o inglês disputou a Fórmula 5000 Europeia, sagrando-se campeão daquela temporada.

Peter ingressou na Fórmula 1 como substituto de Bruce McLaren, o homem que lhe deu a oportunidade de correr na Can-Am

Peter ingressou na F1 como substituto de Bruce McLaren, o homem que deu a chance de correr na Can-Am

Em 1970, Peter seguiu na Can-Am. Pela McLaren, foi terceiro colocado na temporada, vencendo uma prova. Também disputou a F-5000, onde obteve o bicampeonato. Contudo, faltava o passo definitivo: chegar à Fórmula 1. A oportunidade veio ainda em 1970, por conta de uma fatalidade: coube a Gethin substituir Bruce McLaren, morto em 2 de junho daquele ano, num acidente com seu protótipo em Goodwood. Sem o neozelandês, a McLaren optou pelo inglês para a disputa do GP da Holanda. Peter participou de outras seis etapas, com destaque para o 6º lugar no GP do Canadá, em Mont-Tremblant.

Gethin foi confirmado para a temporada de 1971 pela McLaren, e teria como companheiro de equipe o neozelandês Denny Hulme, campeão de 1968. Hulme anotou seis pontos nos três primeiros GPs do ano, contra nenhum de Peter. Porém, o carro era inferior ao dos adversários, e tanto o neozelandês quanto o inglês sofriam com o equipamento. Depois de sete etapas sem pontuar, Gethin recebeu o convite da BRM para substituir Pedro Rodríguez – o mexicano faleceu em 11 de julho, em um acidente com um protótipo da Ferrari em Norisring, na Alemanha.

Gethin se transferiu para a BRM para substituir o mexicano Pedro Rodríguez

Gethin deixou a McLaren e se transferiu para a BRM, onde substituiu o mexicano Pedro Rodríguez

Na primeira prova no cockpit da nova escuderia, no GP da Áustria, no veloz circuito de Osterreichring, Peter viu seu novo companheiro de time, o suíço Jo Siffert, triunfar de forma espetacular. O inglês terminou a etapa em 10º, à frente de seus outros dois parceiros de time – o austríaco Helmut Marko, 11º na prova austríaca, e o neozelandês Howden Ganley, que abandonou. Diante do brilhante desempenho de Siffert, a expectativa da BRM era a melhor possível para o GP da Itália, em Monza. Afinal, a pista italiana era de altíssima média de velocidade, ideal para o potente motor BRM V12.

Nos treinos em Monza, a BRM se destacou. Siffert alinhou seu bólido em terceiro, com o tempo de 1m23s03, seguido por Ganley, o quarto com 1m23s15. Gethin ficou em 11º, com 1m23s88, imediatamente à frente de Marko, o 12º, com 1m23s96. A marca de Peter foi 1s48 mais lenta que a de Chris Amon (Matra), o pole com 1m22s40, com uma incrível média de velocidade de 252,214 km/h. Partindo do meio do pelotão, a expectativa para o inglês da BRM era usar a paciência e a potência do propulsor para se recuperar no GP.

Em Monza, a BRM tinha quatro pilotos: Gethin, Jo Siffert, Howden Ganley e Helmut Marko

Em Monza, a BRM tinha 4 pilotos: Gethin (18), Howden Ganley (19), Jo Siffert (20) e Helmut Marko (21)

A corrida

Diante do equilíbrio de forças, o GP da Itália, disputado em 5 de setembro de 1971, teve todos os ingredientes possíveis para ser emocionante. Logo na largada, Gethin superou François Cevert (Tyrrell) e Tim Schenken (Brabham), assumindo a nona posição. Na volta 3, Cevert ultrapassou Peter, que caiu para o 10º lugar. Ali ficou por pouco tempo, uma vez que, na passagem seguinte, passou por Amon. Na volta 5, Gethin subiu para oitavo ao superar Henri Pescarolo (March). Porém, perdeu duas posições nas voltas 9 e 10, respectivamente, para Mike Hailwood (Surtees) e Amon, retornando para o 10º lugar.

Aliás, Gethin travou um duelo à parte com Amon pelo nono lugar. Na volta 14, o inglês da BRM voltou a superar o neozelandês da Matra, que por sua vez deu o troco em Peter na passagem seguinte. Os abandonos de Jackie Stewart (Tyrrell) e Jacky Ickx (Ferrari) na volta 16 colocaram Gethin em oitavo. Duas voltas depois, Clay Regazzoni (Ferrari) também deixou a etapa, dando fim às chances ferraristas de triunfar em casa. Sem o suíço, Peter se viu na sétima posição.

Nas primeiras voltas, Gethin travou disputa com Pescarolo (16), Amon (12) e Schenken (11)

Nas voltas iniciais, Gethin travou disputa com Henri Pescarolo (16), Chris Amon (12) e Tim Schenken (11)

Na volta 19, o inglês da BRM chegou a ser ultrapassado por Jackie Oliver (McLaren), mas retomou o sétimo lugar logo na passagem seguinte. A partir daí, se viu num pelotão único. Todos os sete primeiros lutavam pela vitória em Monza. Na volta 20, a liderança era de Ronnie Peterson (March), seguido por Cevert, Hailwood, Siffert, Ganley, Amon e Gethin. A troca de posições foi constante, mas Peter, em nenhum momento, se afobou. Somente na volta 32, alcançou o sexto lugar, por conta de problemas com Siffert. Sem Jo na disputa pela vitória, apenas Ganley e Gethin tinham motores V12 entre os seis primeiros.

Com os carros passando juntos na linha de chegada, Peter decidiu usar o vácuo dos ponteiros. Isso poupava seu carro para a bandeira quadriculada, que seria tremulada na volta 55. Diante disso, foi paciente. Na volta 47, Amon teve problemas em seu Matra, e deixou o pelotão. A partir de então, a disputa pelo primeiro lugar ficou concentrada em Peterson, Cevert, Hailwood, Ganley e Gethin, os cinco ponteiros na volta 48. Todos estavam ávidos pela vitória, afinal, nenhum deles havia vencido na Fórmula 1.

Pela ordem, Peterson, Gethin, Hailwood, Cevert e Ganley: todos lutavam pela 1ª vitória

Pela ordem, Peterson, Gethin, Hailwood, Cevert e Ganley: todos lutavam pela 1ª vitória

Na volta 50, Peter começou a ganhar território ao superar Cevert e Ganley. À sua frente, apenas Ronnie e Mike. Na volta 52, Gethin ultrapassou Peterson e Hailwood e assumiu a liderança. Na 53, se manteve na ponta, com os rivais pendurados em seu vácuo. Logo, Gethin viu os adversários se aproveitarem desta arma, e despencou para o quarto lugar. Quando abriu a volta 55, o inglês estava atrás de Peterson, Cevert e Hailwood. A vitória só viria diante de manobras precisas e definitivas.

Peter foi decidido para a volta final. Logo, deixou Hailwood para trás. Depois da curva Ascari, era o terceiro, atrás de Cevert, o líder, e Peterson, o segundo. Faltava apenas uma curva, a velocíssima Parabólica, para decidir o GP da Itália. Ronnie partiu para cima de François na freada para a Parabólica, e o sueco superou o francês. Todavia, Peterson freou tarde demais, e seu March escapou. Gethin, que contornou a Parabólica em segundo, já à frente de Cevert, tracionou melhor na saída da curva. Estava em primeiro. Porém, o March de Ronnie teve melhor aceleração. A parada seria decidida na bandeirada.

Gethin foi decidido para a Parabólica, superou Cevert e Peterson e faturou o GP da Itália de 1971

Gethin foi decidido para a Parabólica, superou Cevert e Peterson e faturou o GP da Itália de 1971

Caso a linha de chegada estivesse 15 metros adiante, o triunfo ficaria com Peterson. Mas não. Gethin ergueu o braço antes da bandeirada, mas ao recebê-la, não sabia se havia vencido. Porém, o tradicional placar de Monza deu números finais: Peter venceu, com 0s010 de vantagem sobre Peterson, 0s090 sobre Cevert, 0s180 sobre Hailwood e 0s610 sobre Ganley. Foi no sufoco, por um triz, mas lhe valeu ingressar na história.

Falecido em 5 de dezembro de 2011, vítima de um câncer no cérebro, Peter Gethin obteve sua única vitória e seu único pódio na Fórmula 1 em Monza-1971. Foi ali onde liderou pela única vez – e por três voltas – e somou 9 dos seus 11 pontos em 30 GPs na carreira. E não precisou de mais nada para ser eternizado. Tudo isso graças a 10 milésimos.

Gethin foi decidido para a Parabólica, superou Cevert e Peterson e faturou o GP da Itália de 1971

Gethin foi decidido para a Parabólica, superou Cevert e Peterson e faturou o GP da Itália de 1971

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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