Austrália-1992: o canto do cisne de Stefano Modena

Em Adelaide, Modena foi sexto em sua 70ª  e última corrida na carreira

Em Adelaide, Modena foi sexto em sua 70ª e última corrida na carreira

Em 8 de novembro de 1992, Stefano Modena deu seu “canto do cisne”. Foi no GP da Austrália daquele ano, em Adelaide, que o italiano fez sua 70ª e última corrida na Fórmula 1. No cockpit da Jordan, o piloto obteve um inesperado sexto lugar na etapa australiana, a última daquela temporada. Foi o único ponto conquistado pela escuderia de Eddie Jordan em 1992. E o último de Stefano, cuja carreira sempre esteve prestes a deslanchar, mas nunca foi gloriosa. Não por falta de talento, pois isso ele tinha. Entretanto, o italiano nunca teve uma real oportunidade de mostrar seu potencial na categoria máxima do automobilismo.

As 69 participações anteriores mesclaram atuações marcantes com desempenhos desprezíveis. Modena estreou na Fórmula 1 ao substituir Riccardo Patrese na Brabham, no GP da Austrália de 1987, em Adelaide. No ano seguinte, embarcou numa conturbada temporada com a Eurobrun. Após figurar entre os últimos em 1988, Modena foi novamente convidado para defender a Brabham – desta vez, como titular. Em dois anos (1989 e 1990), figurou entre os pontuáveis em duas oportunidades: conquistou um incrível pódio no GP de Mônaco de 1989, e obteve um bom quinto lugar no GP dos Estados Unidos de 1990, em Phoenix.

Ao lado de Nelson Piquet e Riccardo Patrese, em Montreal-1991: o auge de Modena na F1

Ao lado de Nelson Piquet e Riccardo Patrese, em Montreal-1991: o auge de Modena na F1

Sem perspectiva na Brabham, o italiano ficou próximo da Benetton para a temporada de 1991, onde substituiria o compatriota Alessandro Nannini, que sofrera um acidente de helicóptero que acabou com sua carreira na Fórmula 1. Todavia, após o segundo lugar de Roberto Moreno no GP do Japão e o lobby de Nelson Piquet, a porta foi fechada para Modena. A saída para Stefano foi marcar território na Tyrrell, que perdia a sensação Jean Alesi para a Ferrari. Era uma equipe em ascensão, que conquistou resultados expressivos com o francês em 1990. Contratado por Ken Tyrrell, o italiano queria mostrar serviço. E foi com confiança que Modena partiu para a estreia na nova equipe.

Logo na prova de abertura, no GP dos Estados Unidos, em Phoenix, ficou em quarto lugar. Depois, flertou com o pódio ns GPs de San Marino, em Imola, e de Mônaco, no Principado, mas foi traído pelo equipamento. O azar acabaria na América do Norte, onde Stefano foi segundo no GP do Canadá, em Montreal, seu melhor resultado na carreira. Contudo, após seu auge, o italiano amargaria maus resultados. A Tyrrell se perdeu com a saída do projetista Harvey Postlethwaite, e Modena só voltaria a pontuar em Suzuka, após um sexto lugar. Ele terminou o Mundial de 1991 em oitavo lugar, com 10 pontos, mas a crise na Tyrrell o fez mudar mais uma vez. Ao italiano, foram abertas as portas da Jordan, que teve êxito incrível naquela temporada.

Para 1992, Modena apostou na Jordan: nova escolha precipitada

Para 1992, Modena apostou na Jordan: nova escolha precipitada

Para 1992, porém, Eddie Jordan apostou em um projeto inovador, trazendo, ainda, o motor Yamaha. Foi uma combinação desastrosa. Ao lado de Mauricio Gugelmin, Modena penou na Jordan. Ao desembarcar em Adelaide, nem o italiano tampouco o brasileiro haviam anotado pontos. Porém, uma exibição animadora na etapa anterior, havia devolvido a confiança para Stefano – o sétimo no GP do Japão, em Suzuka.

Nas ruas do circuito australiano, todavia, a Jordan mais uma vez decepcionou. Modena fez seu melhor, como sempre, e anotou o 15º tempo, com 1m17s231. Ficou 3s499 de Nigel Mansell (Williams), o pole. Em contrapartida, foi 0s574 mais veloz que Gugelmin, que alinhou em 20º no grid. Perspectivas para a corrida de Adelaide? Depois de 15 GPs repletos de fracassos, esperar algo além de terminar a desgastante etapa era ser otimista demais.

Largada do GP da Austrália de 1992: Stefano largou em 15º e escapou de acidente na primeira curva

Largada do GP da Austrália de 1992: Stefano largou em 15º e escapou de acidente na primeira curva

A corrida

Desanimado com a Jordan e com seu destino na carreira, Modena largou no GP da Austrália. Logo de cara, o italiano precisou se livrar de uma confusão: na freada para a primeira curva, Olivier Grouillard (Tyrrell), Pierluigi Martini (Dallara) e Michele Alboreto (Footwork) se enroscaram e deixaram a prova. Johnny Herbert (Lotus) também se envolveu no acidente e caiu para a última posição. Stefano saltou sobre a zebra para se desvencilhar do choque e completou a volta 1 numa inesperada 11ª posição.

Na volta 4, o italiano da Jordan assumiu o 10º lugar graças a Mika Hakkinen (Lotus), que caiu para o fim do pelotão. Na passagem seguinte, Modena apareceu em nono, por conta do abandono de Erik Comas (Ligier), com problemas de motor. A partir dali, só subiria na classificação caso alguém abandonasse. Na volta 19, o acidente de Mansell com Ayrton Senna (McLaren) na luta pela liderança tirou os dois de combate, fazendo com que Stefano surgisse numa incrível sétima posição.

Modena contou com os abandonos e acidentes dos adversários para figurar no top 6

Modena contou com os abandonos e acidentes dos adversários para figurar no top 6

Modena permaneceu ali até a volta 30, quando Andrea de Cesaris (Tyrrell) viu explodir o motor Ilmor de seu carro. Stefano estava em sexto, na zona de pontos. Inacreditável. E sim, tão inacreditável que, na passagem seguinte, Thierry Boutsen (Ligier) superou o italiano da Jordan. Dessa forma, o belga assumiu o sexto posto, derrubando Stefano para sétimo. Boutsen ultrapassou e sumiu na frente de Modena, que precisaria de um milagre para voltar ao top 6.

Mas milagres acontecem. Na volta 51, Riccardo Patrese (Williams), então líder da prova, enfrentou problemas de pressão de combustível e abandonou em Adelaide. Dessa forma, Gerhard Berger (McLaren) tomou a ponta para não mais perdê-la, seguido por Michael Schumacher (Benetton) e Martin Brundle (Benetton). E Stefano? Administrou o sexto lugar até o fim. Trouxe o único pontinho do ano para o box da Jordan.

Nos boxes, nada de festa para Modena: canto do cisne em um ponto

Na Jordan, sem festa para Modena: canto do cisne em um ponto

Festa pelo feito? Nenhuma. O canto do cisne de Modena foi um ponto perdido na história da Fórmula 1…

Nota do blogueiro: “Canto do cisne” é uma referência a uma antiga crença de que o cisne branco (Cygnus olor) é completamente mudo durante toda a sua vida, mas pode cantar uma bela e triste canção antes de morrer. Trata-se de uma metáfora, que ganhou gerações e perdura com o passar dos tempos.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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2 respostas a Austrália-1992: o canto do cisne de Stefano Modena

  1. Grande lembrança! Modena foi um dos mais talentosos e rápidos pilotos italianos, mas sempre esteve no lugar errado, na hora errada.

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