Austrália-1985: Streiff apronta e se rasteja para o pódio

Philippe Streiff em ação nas ruas de Adelaide: noviciado quase custou terceiro lugar, mas fechou suas portas na Ligier

Philippe Streiff em ação em Adelaide: incidente quase custou 3º lugar, mas fechou suas portas na Ligier

Imagine a seguinte situação: você é um piloto novato e larga na longínqua 18ª colocação em um grande prêmio. De repente, as circunstâncias o colocam na terceira posição. Seu ritmo é bom, a ponto de alcançar o vice-líder a duas voltas do fim da corrida. Só tem um porém: o segundo colocado é seu experiente companheiro de equipe, que enfrenta problemas de combustível. O que fazer? a) ficar onde está e garantir seu primeiro pódio na carreira; b) ir para cima e conquistar o segundo lugar; ou c) esquecer a freada, abalroar o parceiro de time e colocar tudo a perder.

Philippe Streiff optou pela alternativa ‘c’. Por pouco, muito pouco, não desperdiçou a chance de obter um pódio na Fórmula 1. A pataquada do francês ocorreu na primeira edição do GP da Austrália, disputada em 3 de novembro de 1985, no circuito de rua de Adelaide. A bordo de um Ligier, Streiff disputava apenas sua sexta corrida na categoria máxima do automobilismo. Apesar de calouro, o francês já tinha 30 anos. Porém, sofreu com o noviciado. O terceiro lugar veio, mas a manobra equivocada contra o veterano compatriota Jacques Laffite selou o fim de sua trajetória na escuderia de Guy Ligier.

O pódio de Adelaide-1985 teve largada 20 anos antes. Explica-se: em 1965, Philippe, então com 10 anos, foi apresentado a um kart. O pequeno carro era de propriedade dos pais de René Arnoux – sim, ele mesmo. Os pais de Streiff, então, compraram o bólido de Arnoux para o filho. Em meados dos anos 1970, Philippe passou a levar o automobilismo mais a sério, ingressando nas principais categorias de base da França. Em 1978, foi campeão francês de Fórmula Renault. Três anos depois, levantou o título da Fórmula 3 Francesa.

O pódio no GP da Austrália de 1985 começou a ser conquistado quando começou no kart, com 10 anos

O pódio em Adelaide começou a ser conquistado quando começou no kart, com 10 anos

Em 1982, Streiff ingressou na Fórmula 2 Europeia. Passou três temporadas nesta categoria. O máximo que conseguiu foram dois quartos lugares na classificação final e uma única vitória, em Brands Hatch, em 1984. Aliás, seria neste ano que o francês teria sua primeira experiência na Fórmula 1: no GP de Portugal, no Estoril, Philippe correu no terceiro carro da Renault. Largou em 13º, mas abandonou com problemas de transmissão na volta 48, quando era o 17º.

A chance da etapa portuguesa foi única. Streiff não conseguiu um time para correr na temporada de 1985. Dessa forma, restou a Philippe a alternativa de prosseguir na Fórmula 2, que, a partir daquele ano, receberia um novo nome: Fórmula 3000 Internacional. Enquanto atuava na categoria de acesso, assistia às peripécias de Andrea de Cesaris na Ligier. Diante tantos acidentes e confusões causados pelo italiano, Guy Ligier dispensou Andrea no meio da temporada.

Assim que a escuderia francesa abriu a vaga, Streiff se apresentou. Levou consigo o apoio do Grupo Blanchet Locatop, o mesmo que o patrocinava na F3000. Pronto: 20 anos depois, o sonho se tornava realidade para Philippe. Sua primeira corrida na Ligier foi o GP da Itália, em Monza. Logo de cara, superou o experientíssimo Jacques Lafitte no grid. Na prova, terminou em 10º. Na Bélgica, em Spa, foi nono. No GP da Europa, em Nurburgring, surpreendeu ao levar a Ligier ao quinto lugar no grid. Na etapa, ficou em oitavo.

Philippe estreou na Ligier no GP da Itália de 1985, largando à frente de Jacques Laffite

Philippe estreou na Ligier no GP da Itália de 1985, largando à frente de Jacques Laffite

Em três participações, três top 10. Na corrida seguinte, por determinação do então presidente François Mitterrand, as escuderias francesas Renault e Ligier boicotaram o GP da África do Sul, país que vivia sob regime do apartheid. Streiff, porém, correu em Kyalami pela Tyrrell, no lugar de Stefan Bellof, morto nos Mil Quilômetros de Spa. Na disputa, porém, o francês se acidentou na volta 16, abandonando a prova.

Para Adelaide, derradeira etapa do Mundial de 1985, Streiff retornou ao cockpit da Ligier. O clima era festivo, uma vez que seria a corrida inaugural nas ruas da cidade australiana, e a primeira edição de um GP da Austrália na história. Apesar do título estar definido em favor de Alain Prost (McLaren), o fato da pista ser novidade para todos no ‘circo’ passava a ser um saboroso desafio. Nenhuma equipe ou piloto sabia como os carros se comportariam no novo circuito. Foi a deixa para que Philippe se aproveitasse da situação.

Nos treinos oficiais de sexta e de sábado, Streiff voltou a ser mais veloz que Lafitte. No primeiro dia, foi 0s354 mais rápido (1m26s618 de Philippe, contra 1m26s972 de Jacques). Na definição do grid, a vantagem foi maior, com o calouro superando o veterano por 0s564 (1m24s266 para Streiff, contra 1m24s830 para Lafitte). O tempo de Philippe o colocou no 18º lugar, a longínquos 4s443 do pole position, Ayrton Senna (Lotus). Jacques, por sua vez, ficou na 20ª posição no grid.

Na largada em Adelaide, Mansell assumiu a ponta, mas logo em seguida abandonaria a prova

Na largada em Adelaide, Mansell assumiu a ponta, mas logo em seguida abandonaria a prova

A corrida

Diante tamanho abismo, pontuar parecia missão impossível para a dupla da Ligier. Somente o acaso faria Streiff e Lafitte conquistarem algo maior na etapa australiana. E a sorte sorriu, volta após volta, para os dois franceses. Na largada, dada sob um sol de 30ºC, Philippe pulou para a 17ª posição, após o abandono de Nigel Mansell (Williams), tendo Jacques na sua cola, em 18º. Na volta 3, com Martin Brundle (Tyrrell) caindo para último após ir aos boxes, Streiff assumiu o 16º lugar. Três voltas depois, o abandono de Eddie Cheever (Alfa Romeo) colocou o francês em 15º.

Na volta 9, Philippe foi superado por Teo Fabi (Toleman) e Alan Jones (Lola), voltando para o 17º posto. Duas passagens depois, Fabi e Gerhard Berger (Arrows) pararam nos boxes, reconduzindo o francês da Ligier para o 15º lugar. Na volta 12, foi a vez de Stefan Johansson (Ferrari) fazer seu pit stop, levando Streiff para 14º. Na 13, Patrick Tambay (Renault) e Thierry Boutsen (Arrows) foram para os boxes, e Philippe assumiu o 12º posto. Na 14, o piloto da Ligier superou Riccardo Patrese (Alfa Romeo) e contou com a parada de box de Derek Warwick (Renault) para figurar pela primeira vez no top 10 de Adelaide.

Streiff subiu de posições graças aos abandonos e às paradas de boxes dos adversários

Streiff subiu de posições graças aos abandonos e às paradas de boxes dos adversários

Com o abandono de Nelson Piquet (Brabham) na volta 15, Streiff subiu para o nono lugar. Porém, ficou nela por duas voltas – na 17, o francês da Ligier foi superado pelo compatriota Tambay. Mas a sorte estava com o calouro: na passagem seguinte, Jones, com problemas elétricos que o fariam abandonar, e Elio de Angelis (Lotus), desclassificado por alinhar seu carro de forma irregular no grid, abriram caminho para Philippe assumir o oitavo lugar. Na volta 20, foi a vez de Tambay deixar o GP, e o francês da Ligier herdou o sétimo posto.

Streiff ingressaria na zona de pontuação na volta 26, graças à quebra do motor TAG-Porsche do McLaren de Porsche. O gaulês ficou em sexto até a volta 41, quando fez seu pit stop. No retorno à pista, estava em nono. Na volta 42, o abandono de Marc Surer (Brabham) colocou Philippe em oitavo. Ali ficaria até a volta 53, quando ultrapassou Ivan Capelli (Tyrrell) para assumir o sétimo lugar. Na volta 57, o líder Niki Lauda (McLaren) se despediu da Fórmula 1 com um acidente. Além do austríaco, Warwick deixou a etapa australiana, fazendo com que o francês da Ligier alcançasse o quinto posto.

As quebras de Senna e Alboreto colocaram Streiff em terceiro lugar

As quebras de Senna e Alboreto colocaram Streiff em terceiro lugar

Com o top 5 encaminhado, Philippe precisava de mais? O destino resolveu pregar das suas. Na volta 61, Michele Alboreto (Ferrari) abandonou com problema de câmbio. Na 62, Senna, primeiro após o acidente de Lauda, teve o motor Renault de seu Lotus quebrado após fazer uma alucinada apresentação. Sem os dois, Streiff se viu em terceiro, atrás apenas de Keke Rosberg (Williams) e… Lafitte! Numa prova de paciência, Jacques, de 42 anos, parou nos boxes no início da etapa e foi premiado com a segunda posição.

A 20 voltas do fim, a Ligier via seus dois carros no pódio. Lafitte, com pneus desgastados e economizando combustível, reduziu seu ritmo. Streiff, por sua vez, tratou de acelerar. Na volta 81, a duas voltas do fim, Philippe encostou em Jacques. Despreocupado com o novato, o veterano aliviou o ritmo. O calouro, entretanto, viu que seria a grande chance para assumir o segundo lugar. Lafitte antecipou a freada, e Streiff bateu na traseira do companheiro. O pódio certo da Ligier quase virou tragédia.

Essa imagem quase não existiu por culpa de Streiff, que completou o GP com três rodas

Essa imagem quase não existiu por culpa de Streiff, que completou o GP com três rodas

Jacques se manteve na pista sem maiores problemas e assegurou o segundo lugar, a 46s130 de Rosberg, o vencedor na Austrália. Philippe, por sua vez, se rastejou com três rodas durante uma volta e meia, mas conseguiu completar a prova de Adelaide em terceiro. Capelli, em quarto, pontuou pela primeira vez na carreira, seguido por Johansson e Berger. Mas todos os holofotes se voltaram para a inacreditável briga travada entre a dupla da Ligier e o desespero de Guy Ligier.

Ao blog “Almanaque da Fórmula 1”, de Alexandre Carvalho, Streiff deu a seguinte declaração sobre o incidente com Lafitte: “Eles não ficaram nem um pouco felizes com o que aconteceu. Mas não tínhamos ordens da equipe quanto a isso, e Jacques estava ficando sem combustível, estando dois segundos mais lento do que eu. Ele acabou freando muito cedo no final da reta e, como eu estava muito perto, acabei batendo na traseira dele, pelo lado direito, e quebrei minha suspensão dianteira. Por sorte, isso não alterou o resultado da corrida”, defendeu-se Philippe que, depois desse episódio, nunca mais correu pela Ligier. Coincidência ou não, foi o primeiro e único pódio da carreira do francês.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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