Portugal-1984: Senna, um coadjuvante na festa da McLaren

Ayrton Senna carregou seu Toleman ao terceiro pódio na temporada

Ayrton Senna carregou seu Toleman ao terceiro pódio na temporada

Em 21 de outubro de 1984, a Fórmula 1 testemunharia uma das disputas de título mais acirradas de sua história. O Autódromo do Estoril, em Portugal, presenciou um duelo de tirar o fôlego. Durante as 70 voltas da etapa lusa, só se sabia que a McLaren, vencedora de 11 das 15 etapas daquele ano até então, faria um de seus pilotos campeão. Mas qual deles levantaria o troféu? Alain Prost e Niki Lauda viram a taça trocar de mãos no decorrer da corrida. O francês venceu o GP de Portugal. Contudo, o austríaco ficou em segundo, superando o companheiro de equipe por irrisório – mas valioso – 0,5 ponto.

E quem foi o convidado de honra para a grande festa da McLaren? Um novato de 24 anos, que conquistaria ali, no Estoril, seu terceiro top 3 na carreira. Seu nome: Ayrton Senna. A bordo de um Toleman, o brasileiro teve um fim de semana irrepreensível. Em sua despedida da escuderia – já tinha assinado contrato para defender a Lotus em 1985 -, Ayrton foi impecável: largou em terceiro, atrás apenas de Prost, o segundo no grid, e Nelson Piquet (Brabham), o pole. Na corrida, mostrou regularidade e manteve-se firme no duelo contra Michele Alboreto (Ferrari) para conquistar o terceiro lugar.

Nos treinos oficiais, Senna chegou a ficar na pole provisória, mas ficou com o terceiro tempo

Nos treinos oficiais, Senna chegou a ficar na pole provisória, mas ficou com o terceiro tempo

Senna desembarcou em solo português com 9 pontos no Mundial, obtidos graças a dois pódios – foi segundo em Mônaco, quando foi sensação ao lado de Stefan Bellof (Tyrrell), e terceiro na Inglaterra – e dois sextos lugares – um na África do Sul, quando foi parar no hospital, e outro na Bélgica. Porém, o brasileiro se despedia da Toleman num clima pesado: a escuderia não se conformava com o fato de o piloto-revelação daquele ano ter se transferido para a Lotus. A bronca foi imensa. O ápice ocorreu no GP da Itália, em Monza, quando Ted Toleman impediu Ayrton de correr como retaliação da negociação.

No Estoril, Senna daria adeus ao time onde viveu bons momentos. Por isso, queria sair da Toleman pela porta da frente. Nos treinos, foi impecável. Não se intimidou com o poderio de McLaren, Brabham, Lotus, Williams e Renault. Na sua volta mais rápida, anotou um incrível 1m21s936. Por um bom período, figurou na pole. O tempo passou. No fim, apenas ele, Nelson Piquet e Alain Prost andaram abaixo da casa de 1m22s. Ayrton ficou a 0s162 de Prost, o segundo, e a 0s233 de Piquet, o pole do GP de Portugal. A terceira posição de Senna rendeu o melhor grid da história da equipe até então. Um verdadeiro ‘cala a boca’ para Ted Toleman.

Na largada, Senna caiu para o quinto lugar, atrás de Rosberg, Mansell, Prost e Piquet

Na largada, Senna caiu para o quinto lugar, atrás de Rosberg, Mansell, Prost e Piquet

Quando as luzes verdes se acenderam para a quarta edição do GP de Portugal – a primeira no Estoril -, iniciou-se uma disputa intensa para ver quem chegaria na frente na primeira curva. Ayrton deu um ‘chega pra lá’ em Keke Rosberg (Williams), mas depois aliviou, sendo superado pelo finlandês. A cautela acabou permitindo a ultrapassagem de Nigel Mansell (Lotus). Rosberg assumiu a ponta, seguido por Mansell, Prost, Piquet e Senna. Na luta pelo terceiro lugar, Nelson, na ânsia de tentar superar Alain, rodou e caiu para a última posição. Ayrton, assim, completou a volta 1 em quarto.

Na volta 2, o brasileiro da Toleman começou a assistir ao show de Prost, que superou Nigel para assumir o segundo lugar, colando imediatamente em Keke. Aos poucos, Senna perdia contato com Mansell, o terceiro, enquanto Michele Alboreto (Ferrari) não o deixava sossegado. Na volta 9, após uma árdua briga, Prost ultrapassou Rosberg e se colocou em primeiro. Era o indício de que o finlandês tinha problemas com o desgaste dos pneus de seu Williams na pista portuguesa, que vivia um domingo de sol e calor. Na volta 12, Keke lutou com Nigel, mas também não resistiu ao inglês.

O brasileiro manteve seu Toleman sempre entre os quatro primeiros no Estoril

O brasileiro manteve seu Toleman sempre entre os quatro primeiros no Estoril

Será que Senna tinha condições de ultrapassar Rosberg? A resposta demoraria sete voltas para ser dada. O brasileiro da Toleman se aproximou do finlandês de Williams e passou a pressioná-lo. Na volta 19, Ayrton partiu decidido e superou Keke, se colocando no top 3. À frente dele, apenas Prost e Mansell. Contudo, havia um certo Niki Lauda fazendo uma corrida de recuperação em busca do tricampeonato. Naquela altura, o austríaco da McLaren estava numa discreta sétima posição. Ou seja, o título era de Prost. Por isso, era tudo ou nada para Niki.

Na volta 27, Lauda superou o companheiro de Senna, Stefan Johansson (Toleman), na marra. Na passagem seguinte, não tomou conhecimento de Alboreto. Na 31, ultrapassou Rosberg. O próximo da lista do austríaco seria Ayrton. Ao ver a McLaren vermelha e branca crescer em seu retrovisor, o brasileiro da Toleman até pensou em como domar Lauda. Mas Niki estava determinado e irresistível. Na volta 33, o austríaco tirou Senna do terceiro lugar.

Os três primeiros do GP de Portugal: Prost em 1º, Lauda em 2º e Senna em 3º

O pódio do GP de Portugal: Prost em 1º, Lauda em 2º e Senna em 3º – e Jean-Marie Balestre à frente…

Enquanto Lauda partia em perseguição a Mansell pelo segundo lugar – e o terceiro título mundial -, Prost estava com a vitória assegurada e administrava sua corrida. Ayrton, por sua vez, seguia em quarto, e passava a se preocupar exclusivamente com as investidas de Alboreto, que assumiu o quinto posto na volta 39 após o abandono de Rosberg.

A disputa pelo título mundial passou a ter contornos dramáticos por causa de Mansell. Fiel da balança no duelo entre Prost e Lauda, Nigel passou a enfrentar problemas com os freios de seu Lotus. Na volta 51, o inglês rodou, permitindo que Niki se aproximasse perigosamente. Na sequência, veio a ultrapassagem do austríaco. Mansell não tinha mais o que fazer. Sem freios, voltou a rodar. Desta vez, ficou definitivamente na brita. O abandono elevou Senna ao terceiro lugar.

A classe de 1984: Ayrton Senna (Toleman) está agachado, terceiro da dir. à esq.

A classe de 1984: Ayrton Senna (Toleman) está agachado, terceiro da dir. à esq.

As esperanças de Alain ficavam ou no abandono de Lauda, ou num avanço de Ayrton. Logo, a situação estava bastante complicada para o francês, até porque Senna seguia com Alboreto em seus calcanhares. Com frieza e arrojo, o brasileiro da Toleman impedia os avanços do italiano da Ferrari, mas perdia completamente o contato com Niki. Prost venceu pela 16ª vez, mas desta vez, o triunfo teve um gosto amargo. Afinal, o campeão recebeu a bandeira 13s425 depois de Alain: Lauda era tri.

Em meio ao desfecho do campeonato, Ayrton vencia a batalha com Michele, conquistando o terceiro lugar por míseros 0s275. Melhor despedida da Toleman, impossível: foi o terceiro top 3 de Senna na temporada, o terceiro e último da história da escuderia. O brasileiro terminou o Mundial em nono lugar, com 13 pontos, empatado com Mansell, e colocou a equipe na sétima posição no Mundial de Construtores. Depois de Estoril-1984, Senna ganhou o mundo, e a Toleman virou “a equipe onde correu Ayrton Senna”.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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2 respostas a Portugal-1984: Senna, um coadjuvante na festa da McLaren

  1. Marcos diz:

    Sem dúvida uma grande atuação de Senna, mesmo usando pneus Michelin de 1983 que eram 0,8 segundos mais lentos que os Michelin de 1984 (da McLaren e da Brabham)

  2. JETSENNA, THE GUY ! . . .

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