EUA Leste-1979: o dia em que De Angelis convenceu a Lotus

Elio de Angelis obteve um inesperado quarto lugar em Watkins Glen: feito dobrou Colin Chapman

Com um Shadow, Elio de Angelis obteve um 4º lugar em Watkins Glen: feito dobrou Colin Chapman

O GP dos Estados Unidos-Leste, disputado em 7 de outubro de 1979, em Watkins Glen, encerrou a temporada daquele ano. O autódromo, um templo do automobilismo norte-americano, reservou um espetáculo à parte a seus espectadores, sobretudo pelo fato de ser realizada debaixo de muita chuva. Como não havia mais preocupações em torno do campeonato – Jody Scheckter (Ferrari) já havia se sagrado campeão no GP da Itália, em Monza -, os pilotos atuaram à vontade na 15ª e derradeira etapa do Mundial. Entre eles, um jovem italiano se destacou: Elio de Angelis, 21 anos, levou um precário Shadow ao quarto lugar. Um feito enorme, que resultou numa vaga na Lotus na temporada de 1980.

Para entender como De Angelis anotou seus três primeiros pontos na Fórmula 1, é necessário voltar um pouco no tempo. Nascido em 26 de março de 1958, em Roma, Elio pertencia a uma das famílias mais ricas da Itália. Seu pai, Giulio, foi piloto de motonáutica – ou off-shore -, o que o inspirou a ingressar no mundo da velocidade. A ascensão no automobilismo foi meteórica: estreou no kart aos 14 anos. Aos 17, foi vice-campeão mundial da categoria. Aos 18, em 1976, sagrou-se campeão europeu. Em 1977, passou a pilotar em monopostos, sendo campeão de Fórmula 3 Italiana e vencedor do tradicional GP de Mônaco de F3.

Os bons resultados fizeram as equipes de F1 observarem o jovem De Angelis com mais atenção. Brabham e Tyrrell chegaram a sondá-lo. Ken Tyrrell, inclusive, teria oferecido um cockpit para Elio para a temporada de 1978, mas o dirigente recuou da proposta. Sem a vaga, o italiano foi convidado por Enzo Ferrari para uma reunião em Maranello. No final dela, o piloto foi convencido pelo comendador a entrar no programa de jovens da Ferrari, e De Angelis ingressou na Fórmula 2 pela Minardi – sim, aquela…

De Angelis teve que pagar para ocupar o cockpit da Shadow na temporada de 1979

De Angelis teve que pagar para ocupar o cockpit da Shadow na temporada de 1979

Ao fim de 1978, Elio foi convidado para testar pela Shadow. As ótimas performances nos treinos convenceram a escuderia, que o confirmou para a temporada de 1979. Todavia, o carro não era lá grandes coisas. A equipe passava por uma grave crise financeira, e contava com o dinheiro trazido por De Angelis para sobreviver no ano. O contrato previa que o italiano teria de pagar US$ 25 mil por GP para correr na equipe. O jovem, então, trouxe vários patrocinadores para o time, assegurando sua participação nas 15 etapas do ano.

Com apenas seis anos de automobilismo, De Angelis, aos 20 anos, estreava na Fórmula 1. Sua primeira corrida causou frisson – no GP da Argentina, em Buenos Aires, Elio ficou na sétima posição. O início promissor, porém, não foi mais visto durante a temporada. O italiano abandonou sete provas e não se classificou para o GP de Mônaco. E era assim, sem ponto algum e com a carreira na berlinda, que o piloto da Shadow chegava para a etapa de Watkins Glen.

E Elio brilhou em Glen…

Nos treinos para o GP dos EUA-Leste, De Angelis custou a acertar seu Shadow. Tanto que teve ameaçada sua qualificação para a etapa final. Elio obteve a 20ª posição do grid, com o tempo de 1m40s625. O italiano ficou 0s164 à frente de Vittorio Brambilla (Alfa Romeo), que não se classificou. O tempo de Elio foi 5s010 mais lento que o de Alan Jones (Williams), o pole position em Glen.

Pôster de divulgação para o GP dos Estados Unidos-Leste de 1979

Pôster de divulgação para o GP dos Estados Unidos-Leste de 1979

Expectativas para a corrida? De Angelis queria, antes de qualquer coisa, terminar o GP. O resto só Deus sabia… Quis o destino que no domingo, dia da prova, uma chuva torrencial caísse sobre a pista norte-americana. E foi com o traçado encharcado que foi dada a luz verde. Com pneus de chuva, De Angelis saltou da 20ª para a 13ª posição na volta 1.

Na passagem seguinte, porém, foi superado pelo campeão Jody Scheckter (Ferrari) e por Jacky Ickx (Ligier), caindo para o 15º lugar. Na volta 3, Hans Joachim Stuck (ATS) ultrapassou Elio. Contudo, com o abandono de Ickx, se manteve em 15º. Depois, foi a vez de Jacques Lafitte (Ligier) deixar o GP, colocando o italiano na 14ª posição.

Na volta 7, com a retirada de Carlos Reutemann (Lotus), De Angelis foi para 13º. Todavia, permaneceu ali por pouco tempo. Na volta 15, Patrick Tambay (McLaren) superou Elio, que voltou para o 14º lugar. O vai-e-vem na corrida de De Angelis ali. A partir dali, o jovem italiano começou a ascender na prova, graças, sobretudo, às retiradas dos rivais e a sua impetuosidade.

Debaixo de chuva, Elio de Angelis segurou seu Shadow no seletivo circuito de Watkins Glen

Debaixo de chuva, Elio de Angelis segurou seu Shadow no seletivo circuito de Watkins Glen

Na volta 17, passou por John Watson (McLaren) para assumir a 13ª colocação. Na volta 19, com o abandono de Jean-Pierre Jarier (Tyrrell), alcançou o 12º lugar. Duas voltas depois, foi a vez de Keke Rosberg (Wolf) deixar o GP após um acidente. Na mesma passagem, Elio superou Tambay, chegando, assim, ao 10º lugar.

Com o abandono de Jean-Pierre Jabouille (Renault) na volta 25, De Angelis assumiu o nono posto. Na ocasião, a pista secara, e o italiano foi para os boxes, retornando na mesma posição. Na volta 30, Clay Regazzoni (Williams) sofreu um acidente, deixando a prova e colocando Elio no oitavo lugar.

Elio persegue Hans Joachim Stuck (ATS): disputa rendeu o sexto lugar ao italiano

Elio persegue Hans Joachim Stuck (ATS): disputa rendeu o sexto lugar ao italiano

Na volta 37, Jones, então líder da prova, enfrentou problemas no pit stop da Williams. Resultado: uma roda ficou solta, e o australiano foi obrigado a abandonar. De Angelis, assim, era o sétimo. A partir daí, o italiano da Shadow passou a perseguir Stuck. Combativo, Elio partiu para cima do alemão da ATS. Resultado disso: na volta 45, De Angelis ultrapassou Hans Joachim, assumindo a sexta posição.

Incrível: o jovem colocava uma verdadeira carroça na zona de pontuação. Bastava? Sim, mas ainda veio mais. Na volta 49, Scheckter, então segundo colocado, teve problemas de transmissão em sua Ferrari e foi obrigado a abandonar. De Angelis era o quinto. Quatro voltas depois, Derek Daly (Tyrrell) errou, saiu da pista e deixou a prova. Elio era o quarto. 

À frente dele, apenas Gilles Villeneuve (Ferrari), o vencedor de Watkins Glen; René Arnoux (Renault), segundo; e Didier Pironi (Tyrrell), terceiro. Um feito e tanto. Foram os primeiros três pontos da vida de De Angelis, e os últimos da Shadow na F1. Um encerramento de temporada pra lá de especial.

O desempenho de De Angelis acabou chamando a atenção de Colin Chapman, com quem assinou contrato para correr pela Lotus no ano seguinte, ao lado de Mario Andretti. Para firmar com Elio, porém, o chefão da escuderia inglesa teve que pagar uma multa rescisória para a Shadow, uma vez que o italiano havia firmado contrato com o time por mais três anos.

Como contrapartida, De Angelis não recebeu salários na temporada de 1980. O italiano reclamou? De forma alguma, até porque a Shadow encerrou suas atividades no ano seguinte…

O excepcional resultado em Watkins Glen valeu contrato com a Lotus em 1980

O excepcional resultado em Watkins Glen valeu contrato de De Angelis com a Lotus em 1980

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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