China-2007: ‘muito prazer, eu sou Sebastian Vettel’

Vettel deu show em Xangai, ao levar a Toro Rosso ao quarto lugar no GP da China

Vettel deu show em Xangai, ao levar a Toro Rosso ao quarto lugar no GP da China

Nascido em 3 de julho de 1987, em Heppenheim, Alemanha, Sebastian Vettel foi talhado para o sucesso. Por onde passou, brilhou. Foi assim no kart, nas categorias de base e, obviamente, na Fórmula 1. Manter-se no auge tem sido um desafio constante para o alemão. Antes de conquistar seus títulos, porém, a luta era outra: mostrar que era de fato capaz de se tornar um campeão mundial. No GP da China de 2007, em Xangai, Seb revelou suas credenciais para o mundo. A bordo de um Toro Rosso, surpreendeu ao ser quarto na etapa chinesa. O que veio, a partir dali, se tornou história.

Para entender a façanha de Vettel e da Toro Rosso, é preciso entrar num túnel do tempo e retornar para 2005, quando a Minardi se despediu da Fórmula 1, no GP da China daquele ano. Foi a última corrida da simpática escuderia italiana, cujo espólio foi vendido por Paul Stoddart para Dietrich Mateschitz, dono da marca de energéticos Red Bull. Depois, a Red Bull vendeu 50% do time para o ex-piloto austríaco Gerhard Berger. Assim, com a união de Mateschitz e Berger, nascia a Toro Rosso.

Em 2005, Gerhard Berger se associou a Dietrich Mateschitz, da Red Bull, para criar a Toro Rosso

Em 2005, Gerhard Berger (à esq.) se associou a Dietrich Mateschitz, da Red Bull, para criar a Toro Rosso

O time chefiado por Gerhard Berger seria uma equipe satélite da Red Bull, que fez sua primeira temporada na Fórmula 1 em 2005, após adquirir a Jaguar no fim de 2004. Com a criação da Toro Rosso para 2006, a marca de energéticos expandia seu projeto na categoria. Contudo, o trabalho do ex-piloto seria árduo no primeiro ano do time. Com Vitantonio Liuzzi e Scott Speed, apenas um momento de alegria: no GP dos Estados Unidos, em Indianapolis, o italiano obteve o oitavo lugar. Foi o primeiro e único ponto da escuderia naquela temporada.

Enquanto a Toro Rosso engatinhava em 2006, Vettel era vice-campeão da Fórmula 3 Europeia, sendo superado apenas por Paul di Resta, seu companheiro de equipe. Naquele ano, Sebastian estava atrelado à BMW quando, durante a temporada, Jacques Villeneuve foi demitido. No lugar do canadense campeão de 1997, entrou a sensação polonesa Robert Kubica. O alemão, por sua vez, ingressou como terceiro piloto na vaga deixada pelo polaco no GP da Turquia. Logo, se tornou a sensação dos treinos de sexta-feira. Nas sessões para o GP da Itália, em Monza, Vettel foi o mais veloz do dia. Um assombro.

Vettel defendeu a BMW entre 2006 e 2007. Era piloto de testes do time. Em Indianapolis, substituiu Kubica e não fez feio, ficando em 8º

Vettel testou pela BMW entre 2006 e 2007. Em Indianapolis, substituiu Kubica e ficou em 8º

2007 veio, e Sebastian seguiu na BMW. O alemãozinho mantinha seu forte trabalho quando uma quase tragédia possibilitou sua estreia na Fórmula 1. No GP da Canadá, em Montreal, Kubica sofreu um gravíssimo acidente e foi hospitalizado. Como na semana seguinte aconteceria o GP dos Estados Unidos, em Indianapolis, e Robert não estaria em condições para pilotar, a BMW escalou Vettel. Em sua primeira corrida, cumpriu o seu dever, levando seu carro até a bandeirada quadriculada. Como prêmio, veio o oitavo lugar. Foi o primeiro ponto de Seb na F1. Tinha 19 anos e 349 dias. Foi o mais jovem pontuador da história por quase sete anos – sua marca foi superada no GP da Austrália de 2014, pelo russo Daniil Kvyat.

A Toro Rosso, por sua vez, manteve Liuzzi e Speed para sua segunda temporada. Apesar da perspectiva de melhores resultados para 2007, o que se viu foi fiasco atrás de fiasco. O melhor resultado nas 10 primeiras provas foi o nono lugar de Speed no GP de Mônaco. Uma decepção. Apesar de ter sido o autor do melhor desempenho da escuderia no ano, Scott não gozava de prestígio com Berger. O austríaco considerava o norte-americano desinteressado. O racha foi público, e Speed foi dispensado da Toro Rosso após o GP da Europa, em Nurburgring, quando teve áspero desentendimento com Franz Tost, dirigente do time.

Um acordo entre BMW e Toro Rosso permitiu que Vettel fosse o substituto de Scott Speed a partir do GP da Hungria

Um acordo entre BMW e Toro Rosso permitiu que Vettel fosse o substituto de Speed a partir do GP da Hungria

E quem colocar no lugar de Scott? A resposta estava na BMW. Após pontuar em Indianapolis, Vettel retornou ao posto de terceiro piloto da escuderia alemã. Com a demissão de Speed, a Toro Rosso foi atrás de Seb. Após um acordo entre os dois times, o alemão ingressou no time para a prova seguinte, no GP da Hungria, em Hungaroring. Ainda inexperiente e desambientado na nova casa, Vettel foi superado por Liuzzi nas quatro primeiras corridas que participou.

Na quinta prova pela Toro Rosso, porém, Sebastian deu show. No chuvoso GP do Japão, em Fuji, o alemão surpreendeu. Largando em oitavo, Vettel contou com a pista molhada para partir para o ataque. Após andar em terceiro, atrás apenas de Fernando Alonso e Lewis Hamilton, a dupla da McLaren, Seb alcançou a liderança da prova com a ida dos dois aos boxes. Foram as três primeiras voltas lideradas na carreira do tedesco e também da escuderia. Todavia, um vacilo atrás do safety car acabou com a corrida dele e de Mark Webber (Red Bull). Em terceiro, Vettel não percebeu que o australiano, em segundo, freou. O choque foi inevitável, e os dois deixaram a etapa, para frustração da Toro Rosso.

Um acidente com Mark Webber (Red Bull) acabou com a sensacional prova de Vettel em Fuji: frustração da Toro Rosso

Acidente com Webber (Red Bull) acabou com a sensacional prova de Vettel em Fuji: frustração na Toro Rosso

A redenção após nova decepção

A frustração de Fuji foi o combustível para que Sebastian se redimisse em Xangai. Sem antes, porém, passar por mais uma decepção. Nos treinos para o GP da China, no sábado, Vettel se classificou em 12º, uma posição atrás de Liuzzi. O alemão anotou 1m36s891, 0s029 mais lento que o italiano. Todavia, o germânico foi punido pelos fiscais da FIA, sob a acusação de ter atrapalhado Heikki Kovalainen (Renault) em sua volta rápida. Com isso, perdeu cinco posições, sendo obrigado a largar em 17º.

Ainda assim, Sebastian não se deixou abater. “Este desempenho foi melhor do que esperávamos. Conseguimos manter um ritmo consistente nos treinos oficiais. Vamos ver o que podemos fazer na corrida. Estou ansioso, seja qual for a condição de pista”, afirmou o alemão da Toro Rosso, em tom profético. E foi o aconteceu em 7 de outubro de 2007. Uma chuva fina caía sobre o Autódromo de Xangai no momento da largada. Isso bastou para que Vettel, mesmo largando no fim do grid, fizesse uma irrepreensível apresentação.

Sebastian foi punido nos treinos oficiais em Xangai por atrapalhar Heikki Kovalainen (Renault): vingança na corrida

Seb foi punido no treino por atrapalhar Kovalainen: vingança no GP

Com pneus intermediários, Seb saltou de 17º para 12º ainda na volta 1. Deixou para trás Rubens Barrichello (Honda), Jarno Trulli (Toyota), Anthony Davidson (Super Aguri) e Nico Rosberg (Williams), e se aproveitou da rodada de Ralf Schumacher (Toyota) para retomar aquela que seria sua original posição de largada. “Após a largada, eu pude ultrapassar vários carros na curva, por fora. Ali estava realmente escorregadio, mas assumi o risco. Eu continuei acelerando o máximo que eu podia”, observou Vettel.

Na volta 2, foi a vez do alemão da Toro Rosso ultrapassar Jenson Button (Honda). A partir dali, Vettel passou a perseguir Kovalainen, aquele que teria sido prejudicado por Seb no sábado. Com sede de dar o troco, o germânico superou o finlandês na volta 8, assumindo o 10º lugar. Ali permaneceu por um bom período. Também pudera: largando em 17º, poderia encher seu tanque, o que permitiu com que fizesse um longo primeiro ‘stint’ de corrida. Isso fez com que superasse os rivais que pararam antes nos boxes, como Liuzzi, David Coulthard (Red Bull), Mark Webber (Red Bull) e Robert Kubica (BMW).

Vettel superou Kovalainen na volta 7. O melhor ainda estaria por vir em Xangai

Vettel superou Kovalainen na volta 7. O melhor ainda estaria por vir em Xangai

Quando fez seu pit stop, na volta 26, era o sexto. Na parada, optou por se manter com pneus intermediários, uma vez que a pista seguia molhada. No retorno, se viu em nono. A estratégia surtiria efeito com o tempo. Vettel voltou a subir na classificação na volta 31, graças ao bisonho abandono de Lewis Hamilton (McLaren), que parou na brita da entrada dos boxes. Na mesma passagem, Webber fez seu pit stop. Com isso, Sebastian era o sétimo. Com as paradas de Liuzzi e Nick Heidfeld (BMW), na volta 32, o alemão da Toro Rosso surgiu em quinto. Na 33, foi a vez de Kubica deixar a etapa.

Após o abandono de Robert, Vettel estava numa inacreditável quarta colocação, atrás apenas de Kimi Raikkonen (Ferrari), Fernando Alonso (McLaren) e Felipe Massa (Ferrari). Na volta 34, Sebastian fez seu segundo e definitivo pit stop, caindo para o quinto lugar, atrás de Button. Todavia, Jenson teria que fazer uma nova parada. Foi o que aconteceu na volta 43. A partir dali, bastou a Vettel levar seu bólido com cuidado até o fim. O pódio ficou com Raikkonen, Alonso e Massa, mas o grande vitorioso do dia foi Seb. Na bandeirada, festa no pit lane da escuderia italiana. Além da quarta colocação do alemão, a Toro Rosso celebrou o sexto lugar de Liuzzi, que ficou a apenas 5s de Button, o quinto.

“O quarto lugar coroou uma corrida fantástica”, afirmou Vettel. “Ontem (sábado) eu não estava feliz com a penalização, mas hoje (domingo) eu me vinguei na pista. As últimas 20 voltas foram inacreditáveis. Mesmo que eu tivesse com a situação sob controle e diminuído o ritmo, foi difícil. Quando saí da fábrica de Faenza, na Itália, os caras disseram: ‘Sebastian, você deve trazer alguns pontos de volta para casa’, e eu disse que ia tentar. Agora vou comemorar com a equipe, que fez um ótimo trabalho com a estratégia”, destacou.

Foi o primeiro top 5 da carreira de Vettel, e o melhor resultado da carreira de Liuzzi. O resultado de Sebastian igualou o melhor resultado obtido em 20 anos pela antiga Minardi. Além disso, o quarto lugar de Sebastian e o sexto lugar de Vitantonio proporcionaram oito pontos para a Toro Rosso, fazendo a escuderia sair do zero e terminar o campeonato à frente de Honda, Super Aguri e Spyker. Ou seja: na China, a equipe tinha consciência de que vivenciava um feito pra lá de histórico. E que Seb tinha nascido para brilhar.

Festa na Toro Rosso, com o quarto lugar de Sebastian Vettel e o sexto lugar de Vitantonio Liuzzi

Festa na Toro Rosso, com o quarto lugar de Sebastian Vettel e o sexto lugar de Vitantonio Liuzzi

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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