França-1989: a inesquecível primeira vez de Jean Alesi

Na primeira corrida da carreira, Alesi causou espanto com um incrível quarto lugar

Na primeira corrida da carreira, Alesi causou espanto com um incrível quarto lugar

Sabe aquele célebre jargão popular: “a primeira vez a gente nunca esquece”? Pois bem. Na Fórmula 1, é raríssimo estreantes se destacarem na primeira corrida disputada na carreira. Um desses ‘sortudos de primeira viagem’ viu a oportunidade de começar na categoria máxima do automobilismo com um quarto lugar, obtido em um carro nada confiável. Para coroar o feito, a exibição aconteceu em casa. Jean Alesi (Tyrrell) saiu de Paul Ricard com um sorriso estampado no rosto. Também pudera: conquistou três pontos no GP da França, disputado em 9 de julho de 1989.

Naquele dia, aconteceu de tudo em Le Castellet. Na volta de apresentação, Riccardo Patrese (Williams) teve o motor quebrado e sequer alinhou no grid. Contudo, na largada, Nigel Mansell (Ferrari) foi abalroado por Mauricio Gugelmin (March), provocando o capotamento do brasileiro. A confusão generalizada paralisou a corrida. Quem viu a primeira largada jamais imaginaria que Mansell e Patrese seriam segundo e terceiro lugares, respectivamente, largando dos boxes. Nem que Gugelmin anotaria a volta mais rápida da prova, vencida com tranquilidade por Alain Prost (McLaren).

Alesi e Eric Bernard (Lola): os dois franceses estrearam na F1 em Paul Ricard-1989

Alesi e Eric Bernard (Lola): dupla francesa estreou em Paul Ricard

Esses e outros incidentes explicam como Alesi surgiu do nada e do nada figurou numa incrível segunda posição durante a prova, atrás apenas do herói local – e seu compatriota – Prost. Porém, para entender a aparição de Jean no ‘circo’, é necessário voltar um pouco no tempo. Mais precisamente para o início da temporada de 1989. A Tyrrell mantinha um contrato de patrocínio com a Marlboro Itália, trazido pelo experiente Michele Alboreto. O italiano, responsável pelas duas últimas vitórias da escuderia na Fórmula 1, retornou ao time após deixar a Ferrari.

O dinheiro trazido por Michele, porém, não escondia os problemas protagonizados pelo piloto e o chefe da equipe, o experiente Ken Tyrrell. Os dois não se entendiam. Nem mesmo a evolução do carro, que rendeu ao italiano o quinto lugar em Mônaco e o terceiro no México, selou a paz na equipe. Ken passou a procurar um novo piloto, de preferência talentoso e com suporte financeiro. Foi aí que notou um francesinho fazendo sucesso na Fórmula 3000: seu nome? Jean Alesi. Após quatro etapas, ele liderava a temporada da categoria de acesso à F1. Ademais, tinha apoio da Camel.

Ken Tyrrell fechou com Alesi graças ao suporte financeiro da Camel

Ken Tyrrell fechou com Alesi graças ao suporte financeiro da Camel

Ken sacramentou: Alesi unia o útil ao agradável. O dirigente dispensou Alboreto e fechou acordo com a Camel, que passou a exibir sua marca nos carros da Tyrrell. Jean, então, estrearia na Fórmula 1 justamente no GP da França. Melhor cenário, impossível. Com um carro equilibrado, o jovem francês, então com 25 anos, partiu para os treinos de Paul Ricard. A primeira experiência num fim de semana de prova foi proveitosa. Alesi andou forte, mas pecou pela falta de contato com o carro. Alinhou seu Tyrrell na 16ª posição, com 1m09s668, 0s642 atrás de Jonathan Palmer, seu companheiro de equipe, nono no grid.

O sol brilhou na estreia de Alesi na F1. E a estrela de Jean também. Afinal, escapou ileso do acidente na largada. Gugelmin, Mansell e Thierry Boutsen (Williams) ficam na primeira curva. A prova é interrompida. Na segunda largada, o francês da Tyrrell se livrou de Ayrton Senna (McLaren), que quebrou logo após o sinal verde, com problemas de câmbio. Diante dos infortúnios dos rivais, o estreante completou a volta 1 na 10ª posição. Na abertura da volta 2, superou Bertrand Gachot (Ligier) e assumiu o nono lugar. À sua frente, justamente Palmer.

Jean escapou ileso do acidente da primeira largada, protagonizado por Gugelmin

Jean escapou ileso do acidente da primeira largada, protagonizado por Gugelmin

Alesi passou a perseguir o veterano inglês. Na volta 19, Jean tomou o lugar de Jonathan, passando a ocupar a sétima posição. O francês permaneceria ali até a volta 26, quando foi superado por Gerhard Berger (Ferrari), que fazia corrida de recuperação. Mas o novato da Tyrrell não ficaria em oitavo por muito tempo: na volta 28, ultrapassou Philippe Alliot (Lola), alcançando o sétimo lugar. Na passagem seguinte, a caixa de câmbio da Ferrari de Berger quebrou, forçando o austríaco a abandonar.

Alesi estava na zona de pontuação na volta 29. Todavia, o GP da França tinha 80 voltas. E muito a acontecer… e a favor de Jean. Na volta 30, Patrese vai aos boxes, e o francês assumiu o quinto lugar. Na volta 32, o companheiro de Riccardo na Williams, Boutsen, fez seu pit stop, o que colocou o estreante da Tyrrell na quarta colocação. Assim o novato permaneceria até a volta 40, quando Alessandro Nannini (Benneton) viu a suspensão traseira esquerda quebrar, obrigando-o a deixar o GP. Jean era o terceiro.

Na volta 43, Alesi figurou na segunda posição, atrás apenas do então bicampeão Alain Prost

Na volta 43, Alesi figurou na segunda posição, atrás apenas do então bicampeão Alain Prost

Na volta 43, foi a vez de Ivan Capelli (March) sucumbir ao calor de Paul Ricard – seu motor Judd estourou. Alesi, em apenas 43 voltas de sua primeira corrida, se via na impressionante segunda colocação, atrás apenas de Prost, então bicampeão e recordistas de vitórias na categoria. Porém, os pneus Goodyear de seu Tyrrell não resistiam mais, e Jean foi obrigado a entrar nos boxes na volta 48. No retorno à pista, estava em quarto, atrás somente de Prost, Patrese e Mansell.

Por um instante, Alesi quase viu o pódio cair em seu colo. Na volta 60, Patrese, na ânsia de defender o segundo lugar contra Mansell, escapou da pista. O italiano da Williams girou sobre o eixo na brita e conseguiu retornar ao traçado ainda à frente de Jean. O terceiro lugar não veio, mas o desempenho preciso do novato francês impressionou a todos. Depois daquela apresentação, vieram outros 200 GPs. Mas a sensação causada pela primeira impressão foi além das expectativas. Pena que, durante sua longa carreira, Alesi viveu apenas de lampejos como os de Paul Ricard-1989…

Alesi iniciou a carreira com o pé direito. Porém, obteve apenas uma vitória em 201 GPs

Alesi iniciou a carreira com o pé direito. Porém, obteve apenas uma vitória em 201 GPs

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Bertrand Gachot, Eric Bernard, França, Ivan Capelli, Jean Alesi, Jonathan Palmer, Ken Tyrrell, Ligier, Lola, March, Mauricio Gugelmin, Michele Alboreto, Phillipe Alliot, Tyrrell. ligação permanente.

2 respostas a França-1989: a inesquecível primeira vez de Jean Alesi

  1. rmb37 diz:

    Republicou isso em A Mil Por Hora.

  2. Cristiano Torres diz:

    Foi também naquela corrida em que Prost anunciou a transferência pra Ferrari. Gugelmin também dissera que gostava de estrear o capacete sempre no treino e não na corrida…

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