Mônaco-1996: Olivier Panis, uma surpresa à francesa

Olivier Panis carrega bandeira francesa no Principado: última vitória do país na F1

Olivier Panis carrega bandeira francesa no Principado: última vitória do país na F1

19 de maio de 1996 entrou para a história da Fórmula 1. Não só da categoria, como também de Olivier Panis, da Ligier e do automobilismo francês. Naquele domingo, o Principado de Mônaco testemunhou uma das mais surpreendentes provas de todos os tempos. Como imaginar que um piloto largando da 14ª posição do grid triunfaria na prova mais tradicional do calendário? Muitos ingredientes carregaram Panis à vitória. A chuva, os acidentes com os adversários e o azar de Jean Alesi (Benetton) determinaram o desfecho espetacular daquele domingo, em que apenas quatro carros terminaram a prova.

O topo no GP de Mônaco de 1996 significou a primeiro e único de Olivier na Fórmula 1. Não só isso: foi a primeira vitória da Ligier em 15 anos – não ganhava desde o GP do Canadá de 1981, com Jacques Laffite -, e a nona e última da história da escuderia francesa. Além disso, foi a 79ª e última vitória da França na Fórmula 1. Por conta disso, ver um piloto e uma equipe gauleses triunfarem no Principado encravado na Riviera Francesa teve um sabor especial para o automobilismo do país europeu.

Panis

Panis chegou a Mônaco com um ponto no Mundial: boas perspectivas quase foram por terra nos treinos

Panis desembarcou em Monte Carlo com um ponto na bagagem, fruto do sexto lugar obtido no GP do Brasil, em Interlagos. Era muito pouco, afinal, disputaria ali, naquele fim de semana, a sexta etapa do Mundial. Porém, a situação era condizente com a péssima fase da Ligier. Com sérios problemas financeiros, o time de Guy Ligier teve que apelar para o aluguel de cockpit para manter as atividades. No fim de 1995, acertou com o brasileiro Pedro Paulo Diniz, que praticamente custeou as despesas da equipe. O JS43 não era dos piores equipamentos do grid, mas não encantava.

Impulsionado pelo eficiente, porém pouco potente, motor Mugen-Honda, as expectativas da equipe eram que um bom resultado poderia vir num circuito de baixa velocidade. Justamente as características de Mônaco. Somou-se a isso a instabilidade do clima monegasco. Havia possibilidade de chuva durante todo o fim de semana da prova. Contudo, tanto na quinta-feira (os primeiros treinos em Monte Carlo são sempre realizados neste dia) quanto no sábado, as atividades aconteceram em pista seca.

No breve warm up realizado na chuva, Panis anotou o melhor tempo. Chuva persistiu na largada

No breve warm up realizado na chuva, Panis anotou o melhor tempo. Chuva persistiu na largada

No classificatório, Panis encarou um problema em seu propulsor. Sem potência, o francês da Ligier ficou apenas com a 14ª posição no grid, com 1m22s358, 2s002 atrás de Michael Schumacher (Ferrari), o pole, mas 0s3 à frente de Diniz, o 17º. Em uma pista sem pontos de ultrapassagem, a corrida estava comprometida. Todavia, a chuva prometida durante todo o fim de semana desabou na manhã de domingo. Com a pista molhada, Olivier mostrou bom desempenho e anotou o melhor tempo no warm up improvisado – a direção de prova realizou testes de 15 minutos, uma vez que ninguém havia treinado naquela situação.

Para o francês, somente nestas circunstâncias haveria alguma esperança de um bom resultado. No grid, a chuva era incessante, o que foi crucial para o resultado da corrida. Após a largada, confusões sucessivas mudaram o rumo da prova. Logo na primeira volta, Schumacher, Rubens Barrichello (Jordan), Jos Verstappen (Footwork), Pedro Lamy (Minardi) e Giancarlo Fisichella (Minardi) sofreram acidentes e abandonaram. Panis, por sua vez, figurou na 12ª posição. Ficaria ali até a volta 7, quando superou Martin Brundle (Jordan). Com o abandono de Gerhard Berger (Benetton) na volta 9, Olivier subiu para 10º. Detalhe: havia somente 12 carros na pista. Dez já haviam deixado o GP.

Uma ultrapassagem impossível: Panis colocou por dentro na Loews e superou Irvine com maestria

Uma ultrapassagem impossível: Panis colocou por dentro na Loews e superou Irvine com maestria

Na volta 16, foi a vez de Panis ultrapassar Mika Hakkinen. O francês era o nono colocado. Enquanto isso, Damon Hill (Williams) liderava em Mônaco, seguido por Jean Alesi (Benetton). Eddie Irvine (Ferrari), por sua vez, segurava todo mundo. Heinz-Harald Frentzen (Sauber) tentou superar o irlandês, que fechou a porta na Saint Devote. O alemão da Sauber teve o bico quebrado e foi aos boxes na volta 18. Olivier estava em oitavo. Com o passar das voltas, a pista secou, e todos foram fazer o pit stop para colocar pneus lisos. Hill, Irvine e Panis pararam na volta 28. Foi o grande pulo do francês. Com a parada dos demais adversários, na volta 30, Olivier surgiu em quarto, atrás de Damon, Jean e Eddie.

Panis estava próximo de Irvine, um piloto difícil de ser ultrapassado. O irlandês sempre vendia caro sua posição. Num circuito de rua, então, a dificuldade era dobrada. Mas Panis partiu decidido para o duelo. Na volta 36, colocou por dentro na Loews, um hairpin estreitíssimo. A manobra surpreendeu a todos, sobretudo ao ferrarista, que se viu atirado próximo ao guard rail. O francês assumia a terceira colocação. O pódio passou a ser algo concreto, muito além das expectativas. Mas o melhor ainda estava por vir. Na volta 40, o motor Renault do Williams de Hill explodiu, forçando o inglês a abandonar.

No final, Olivier foi pressionado por Coulthard, mas não teve jeito: uma vitória irrepreensível

No final, Olivier foi pressionado por Coulthard, mas não teve jeito: uma vitória irrepreensível

Naquele momento, desenhava-se uma dobradinha francesa, com Alesi em primeiro e Panis em segundo. Olivier estava mais do que satisfeito com a colocação. Jean liderava com folga a corrida e tinha tudo encaminhado para a vitória. A vantagem era superior a 30s. Alesi se deu ao luxo de fazer uma segunda parada. Porém, havia um problema na Benetton. O carro de Jean tinha a suspensão avariada. Na volta 60, Alesi deixou a prova. Panis herdava a liderança do tradicional GP de Mônaco.

Com a chuva, a prova receberia a bandeirada por conta das 2h de competição. Nesse intervalo, ainda houve tempo para Irvine tirar os finlandeses Hakkinen e Mika Salo (Tyrrell) da corrida. A poucas voltas do fim, Panis passou a ser perseguido por David Coulthard (McLaren). Usando o capacete de Schumacher, o escocês se aproximou bastante do francês. Todavia, Olivier se sobressaiu. Não deixou Coulthard se aproximar. Um dia que começou sem esperanças tornou-se o auge da vida de Panis.

Panis celebra a vitória no GP de Mônaco de 1996: um dos momentos mais surpreendentes da história da prova

Panis celebra a vitória: um dos momentos mais surpreendentes da história da prova

Ao ver a bandeira quadriculada, não pestanejou: ergueu uma belíssima bandeira tricolor e saudou todos os franceses. Foi o último momento de glória do automobilismo francês na Fórmula 1. O canto do cisne da França na categoria. Desde então, o país está carente de vitórias.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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