África do Sul-1984: pelo primeiro ponto, Senna para no hospital

Calor e desgaste com o desequilibrado Toleman não impediram o sexto lugar de Ayrton Senna

Calor e desgaste com o desequilibrado Toleman não impediram o sexto lugar de Ayrton

Kyalami, 7 de abril de 1984. Em um ensolarado sábado – característico de um outono no hemisfério sul -, 26 carros alinharam no grid para a disputa do GP da África do Sul, segunda etapa do Mundial daquele ano. No meio do pelotão, um piloto brasileiro em sua segunda corrida na carreira não fazia a menor noção do que aquela corrida sul-africana lhe reservaria. A bordo do fraco Toleman-Hart, o jovem Ayrton Senna, aos 24 anos, seria definitivamente batizado pela Fórmula 1. Diante de diversos percalços, o paulistano se arrastou para conquistar o primeiro ponto na categoria máxima do automobilismo. Como ‘prêmio’, desmaiou e foi parar no centro médico do autódromo.

A prova de Kyalami foi o teste definitivo para Senna. Afinal, em sua estreia, no GP do Brasil, em Jacarepaguá, Ayrton copmpletou apenas oito voltas. Um problema no turbo do motor Hart de seu Toleman obrigou o brasileiro a abandonar. Dessa forma, ele não foi exigido fisicamente diante do novo desafio. Cabe ressaltar que as categorias de base à época – como a Fórmula 3 Inglesa e a Fórmula Ford, nas quais Senna foi campeão -, as corridas duravam em torno de 30 minutos. Na Fórmula 1, as etapas têm até duas horas de duração. Logo, completar uma maratona dentro de um carro potente era um ‘mergulho na escuridão’ para o estreante.

Senna nunca havia corrido em Kyalami, mas gostou da pista. Tanto que superou em 2s1 seu companheiro de Toleman, Johnny Cecotto, nos treinos

Senna não conhecia, mas gostou de Kyalami. Nos treinos, superou Cecotto, seu parceiro na Toleman, em 1s3

Na África do Sul, Ayrton se deparava com uma pista desconhecida. Nunca ele havia pilotado em Kyalami. Entretanto, logo gostou da pista. Com retas longas e curvas velozes, o circuito era um desafio prazeroso para os pilotos. Nos treinos, Senna se impôs com veemência diante de seu companheiro na Toleman, o venezuelano Johnny Cecotto. Para se ter uma ideia, no classificatório, o brasileiro superou Cecotto por impressionantes 1s3 – Ayrton anotou 1m06s981 e obteve o 13º tempo, enquanto Johnny fez 1m08s298 e ficou em 19º. Em contrapartida, a pole position foi feita por Nelson Piquet (Brabham), com 1m04s871, mais de 2s1 à frente de Senna. Prova da limitação da Toleman.

Para a corrida, a intenção de Ayrton era ter o máximo de experiência possível com seu TG183B, um modelo híbrido do carro de 1983. Por conta disso, uma largada cautelosa era fundamental. Contudo, Senna foi afoito. O brasileiro teve seu spoiler dianteiro avariado e perdeu duas posições – para Andrea de Cesaris (Ligier) e René Arnoux (Ferrari) -, caindo para a 15ª posição. Na volta 6, foi superado por Alain Prost (McLaren), que largou dos boxes e vinha fazendo prova de recuperação. Na ocasião, ocupava a 16ª colocação.

Com problemas no spoiler, Senna chegou a ser pressionado por Cecotto na prova

Com problemas no spoiler, Senna chegou a ser pressionado por Cecotto na prova

Naquele momento, o ritmo de Ayrton era ruim, a ponto de ser pressionado por Cecotto. Domar um carro desequilibrado e com pouca potência estava sendo um verdadeiro martírio. A tática era manter seu Toleman vivo em Kyalami. E levando assim, a sorte começou a sorrir para Senna. Na volta 18, Teo Fabi (Brabham) deixa a corrida, e o brasileiro foi para 15º. Com o problema de Manfred Winkelhock (ATS) na volta 28 e o abandono de Piquet na 30, Ayrton subiu para o 13º lugar.

A partir daí, os pilotos à frente de Senna começaram a fazer seus pit stops, fazendo com que o brasileiro da Toleman figurasse no top 10. A tática era uma só: não parar nos boxes. Os abandonos de Keke Rosberg (Williams) e Nigel Mansell (Lotus) catapultaram Ayrton pela primeira vez ao top 6, na volta 52. A sexta colocação, porém, ficou com Senna por somente duas voltas – na volta 54, Patrick Tambay (Renault) tomou o lugar do brasileiro.

Ayrton resistiu na pista o quanto pôde, mas teve que ir aos boxes. Sexto lugar caiu do céu

Ayrton resistiu na pista o quanto pôde, mas teve que ir aos boxes. Sexto lugar caiu do céu

A ultrapassagem de Tambay revelou: Ayrton não tinha mais condições de se manter na pista com os desgastados pneus Pirelli. Com isso, a Toleman chamou o brasileiro para os boxes na volta 57. No retorno à pista, Senna ocupava a 10ª posição. Na volta 61, os abandonos de Jacques Laffite (Williams) e Stefan Bellof (Tyrrell) levaram Ayrton ao oitavo lugar. Na volta 67, foi a vez de Tambay deixar a corrida. A sétima posição era do piloto da Toleman.

Senna estava distante de De Cesaris, o sexto colocado. Se encontrava a três voltas do líder Niki Lauda (McLaren), que viria a vencer a prova de Kyalami, seguido por Alain Prost (McLaren) e Derek Warwick (Renault) – o inglês, aliás, levaria seu primeiro pódio na carreira. A pergunta era: resistir ao desgaste para chegar em sétimo ou perseverar para ganhar um ponto vindo do céu? Ayrton escolheu a segunda opção e foi premiado. Na volta 71, a quatro voltas do fim, Michele Alboreto (Ferrari) abandonou a etapa. O sexto lugar caiu no colo de Senna.

Exausto após a conquista do sexto lugar, Senna foi parar no centro médico em Kyalami

Exausto após a conquista do sexto lugar, Senna foi parar no centro médico em Kyalami

Festa na Toleman. Mas Ayrton não festejava. Esgotado diante do calor e do esforço necessário para levar o carro até a bandeira quadriculada, o brasileiro desmaiou. Foi levado ao centro médico de Kyalami. Seria liberado pouco depois. Mas o que aconteceu após o sexto lugar na África do Sul, em 1984, norteou a carreira de Senna. A partir dali, passou a dedicar grande parte do seu tempo à preparação física. Treinado por Nuno Cobra, Ayrton se tornou um verdadeiro atleta. Após o pontinho obtido naquele domingo, vieram outros 613. O resto virou história.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Andrea de Cesaris, ATS, Ayrton Senna, África do Sul, Brabham, Derek Warwick, Johnny Cecotto, Keke Rosberg, Kyalami, Ligier, Manfred Winkelhock, Stefan Bellof, Teo Fabi, Toleman, Tyrrell. ligação permanente.

3 respostas a África do Sul-1984: pelo primeiro ponto, Senna para no hospital

  1. mattaum diz:

    O cara tinha sorte desde o começo da carreira… Ótima história!
    http://oneimagef1.wordpress.com/

  2. Essa prova aconteceu no sábado, 7 de abril de 1984, e não domingo como está escrito.

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