Mônaco-1956: a façanha de Hermano da Silva Ramos

Hermano da Silva Ramos foi quinto lugar em Montecarlo-1956

Hermano da Silva Ramos (à esq.) emparelha com Stirling Moss: 5º lugar em Montecarlo-1956

Em 7 de dezembro de 1925, nascia em Paris, na França, o segundo brasileiro a pontuar na história da Fórmula 1: trata-se de Hermano João da Silva Ramos. Mas… Paris? Como um francês representou o automobilismo brasileiro, cara pálida? A resposta para essa pergunta ainda desperta uma disputa até hoje entre europeus e sul-americanos. Tanto a França como o Brasil dizem-se donos da nacionalidade de Nano. De toda forma, esse franco-brasileiro levou, sim, o nome do Brasil mundo afora. Entretanto, tem passado os últimos anos de sua vida em Biarritz – na costa basca francesa…

Seria justamente na Cote D’Azur, no lado mediterrâneo da França, que Hermano da Silva Ramos faria história. Mais precisamente em Mônaco. Nas ruas do Principado, Nano carregou o fraco Gordini para o quinto lugar em Montecarlo. Foi uma epopeia e tanto travada pelo brasileiro – sim, ele será considerado um patrício.

Hermano da Silva Ramos nasceu em Paris, mas se apaixonou pelo automobilismo no Rio

Hermano da Silva Ramos (à dir.) nasceu em Paris, mas se apaixonou pelo automobilismo no Rio

Explica-se: fruto da união de um francês e uma brasileira, Silva Ramos possuía dupla nacionalidade. Passou a infância na França. Contudo, em sua adolescência, se mudou para o Rio de Janeiro. Era o auge da Segunda Guerra Mundial. Essa mudança seria fundamental na vida de Nano. Foi na capital fluminense que ele acabou infectado pela paixão do automobilismo. Em 1952, retornou à Europa para viver o mundo dos carros.

A carreira foi meteórica. Em 1953, comprou um Aston Martin com alguns amigos e passou a competir nas provas francesas. Em 1954, tornou-se o primeiro brasileiro a participar das 24 Horas de Le Mans, a mais tradicional corrida de endurance do mundo. Liderava em sua categoria, mas foi obrigado a abandonar com um problema na suspensão do Aston Martin. Suas boas apresentações nas pistas da França o levaram a ser convidado para a equipe oficial da Gordini em 1955. A Fórmula 1 se tornou um caminho natural.

A F1 era outra em 1955: eis o caminhão e os carros da Gordini. Nano era o 14

A F1 era outra em 1956: eis o caminhão da Gordini em Silverstone. Nano era o 14 e Manzon, o 15

Silva Ramos realizou sete provas na categoria máxima do automobilismo entre 1955 e 1956. Foram três corridas no primeiro ano e quatro no segundo. O brasileiro viu a bandeira quadriculada em apenas três oportunidades. Foi um lucro, uma vez que o carro da Gordini não era resistente. Pior: a marca não tinha recursos para comprar peças novas. O perigo era tanto que havia situações em que as rodas se perdiam por conta dos problemas de suspensão.

A estreia aconteceu na Holanda, em 1955. Em Zandvoort, chegou em oitavo lugar, a distantes oito voltas do vencedor Juan Manuel Fangio (Mercedes). Nas etapas da Inglaterra e da Itália, abandonou com problemas em seu Gordini. Viria então 1956. Aquela temporada começaria especial para o automobilismo brasileiro, uma vez que, na Argentina, Chico Landi (Maserati) levaria seu bólido ao quarto lugar em Buenos Aires. Nano só estreou na disputa na etapa seguinte, em Mônaco.

Silva Ramos recebe orientações de Amédée Gordini, dono da escuderia

Silva Ramos recebe orientações de Amédée Gordini, dono da escuderia

Nas ruas do Principado, Silva Ramos encarou os célebres Stirling Moss (Maserati), Peter Collins (Ferrari) e o próprio Fangio (Ferrari). Na classificação, porém, o brasileiro não foi bem. Alinhou seu Gordini apenas na 14ª posição do grid. A título de comparação, seus companheiros de equipe, os franceses Elie Bayol e Robert Manzon, fizeram o 10º e 11º lugares, respectivamente. Nano marcou o tempo de 1m50s6, exatos 6s6 atrás de Fangio, o pole.

O dia 13 de maio de 1956 estava ensolarado em Mônaco. O cenário pareceu inspirador para Silva Ramos. Logo na largada, o brasileiro da Gordini saltou para a 11ª posição. Na terceira volta, o norte-americano Henry Schell (Vanwall) e o italiano Luigi Musso (Ferrari) se chocaram na disputa da sexta colocação e acabaram abandonando a prova. Bom para Nano, que saltou para o nono lugar logo no início da longa prova, que teria 100 voltas.

Correndo com regularidade, Nano superou as deficiência do Gordini para ser 5º

Correndo com regularidade, Nano superou as deficiência do Gordini para ser 5º

Na volta 14, Eugenio Castellotti (Ferrari) também deixou a etapa monegasca, elevando Silva Ramos para o oitavo posto. A partir daí, o brasileiro fez uma prova regular, se preocupando mais em carregar seu Gordini até o fim. Desgastar seu nada confiável equipamento era uma temeridade. Apenas na volta 67, Nano superaria o italiano Cesare Perdisa (Maserati) e subiria para a sétima posição. Três passagens depois, passou pelo seu companheiro Bayol e assumiu o sexto lugar.

Nano estava a uma posição de pontuar. Porém, estava muito distante dos adversários. Para chegar ao quinto posto, precisava contar com a sorte. E ela veio no final da prova. Com o abandono de seu outro parceiro, Robert Manzon, Silva Ramos alcançou o top 5. Seriam os primeiros – e únicos – dois pontos na carreira do brasileiro. O piloto da Gordini levou sete voltas do vencedor Stirling Moss. Todavia, com o quinto lugar no bolso.

Nano conversa com De Portago: morte do espanhol marcou carreira do brasileiro

Nano conversa com De Portago: morte do espanhol marcou carreira do brasileiro

Foi o ponto alto da carreira de Silva Ramos. Depois de Mônaco-1956, ele sofreu com o trauma da perda do espanhol Alfonso de Portago, seu amigo e companheiro de Gordini, morto num acidente nas Mil Milhas de Brescia, em 1957. Nano deixou a escuderia. Ele ainda disputaria provas em categoria turismo, mas abandonaria a carreira em 1960, em uma prova no Rio. Justamente onde tudo começou para esse brasileiro – residente em solo francês até hoje.

Segundo da esquerda para a direita, Nano vive na cidade francesa de Biarritz

Segundo da esquerda para a direita, Nano vive na cidade francesa de Biarritz

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Cesare Perdisa, Chico Landi, Elie Bayol, Eugenio Castellotti, Gordini, Henry Schell, Hermano da Silva Ramos, Luigi Musso, Maserati, Mônaco, Robert Manzon, Vanwall. ligação permanente.

4 respostas a Mônaco-1956: a façanha de Hermano da Silva Ramos

  1. paulo diz:

    Li suas matérias e gostei bastante!Ótimas,mesmo!Quero te sugerir que escreva sobre a única vitória do Olivier Panis na F1,no GP de Mônaco!Foi uma corrida histórica.

  2. Nanô da Silva Ramos, como era conhecido, era um parente distante; não o conheci; não sei se meus tios ou primos o conheceram.
    Em grau menor de importância, há muitos anos eu e meu filho Pedro Silva Ramos somos pilotos de automodelismo; eu corro desde 1974 e Pedro desde 1989, sendo várias vezes campeão brasileiro. Nosso site tem muitas informações sobre esse esporte – http://www.silvaramos.com.br
    Parabens ao autos do artigo acima. Silva Ramos

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