Austrália-1987: Moreno ‘rouba Senna’ e conquista ponto

Em sua segunda corrida na carreira, Roberto Moreno obteve seu primeiro ponto

Em sua segunda corrida na carreira, Roberto Moreno obteve seu primeiro ponto

Roberto Pupo Moreno é, sem sombra de dúvidas, um dos personagens mais ricos da história do automobilismo. Seus feitos renderiam um roteiro de filme digno de Oscar. Se a vida do brasileiro fosse transportada para as telas de cinema, Moreno seria aquele ator que ganha um papel de coadjuvante, mas que rouba a cena. No GP da Austrália de 1987, aconteceu de tudo com Roberto. E o final da prova foi apoteótico: o piloto da AGS levou o sexto lugar. Era o primeiro ponto da carreira dele. E ele veio ‘roubado’ de Ayrton Senna.

Aqui cabe uma explicação: em nenhum momento Moreno e Senna disputaram posições em Adelaide. Ayrton, aliás, deu três voltas em Roberto e foi segundo colocado nas ruas australianas. Entretanto, a Lotus-Honda dele apresentava dimensões irregulares na entrada de ar dos freios. Senna chegou a ir ao pódio, ladeado pelos ferraristas Gerhard Berger, o vencedor, e Michele Alboreto, o terceiro. Contudo, foi desclassificado após a cerimônia.


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Moreno (sentado na última cadeira à direita) chegou pelas beiradas na Fórmula 1

Moreno (sentado na última cadeira à direita) chegou pelas beiradas na Fórmula 1

A desclassificação fez Senna perder não somente o segundo lugar na Austrália, mas também o vice-campeonato na temporada. Era um final melancólico para Ayrton. Todavia, ele jamais imaginaria a alegria que a infração da Lotus rendeu em três boxes de Adelaide. Na modestíssima AGS, que assegurou seu primeiro ponto de sua história com Moreno; na Lola, com o melhor resultado da vida do francês Yannick Dalmas – quinto lugar, mas sem pontuar, por sua escuderia não tê-lo inscrito para todo o campeonato; e na Tyrrell, com a quarta posição do inglês Jonathan Palmer – o ápice dele na Fórmula 1.

Apesar da festa de Palmer e Dalmas, o toque de missão impossível ficou a cargo de Moreno. O brasileiro caiu praticamente de paraquedas na AGS. Ele foi convidado pela patrocinadora do time, a grife El Charro, para substituir o francês Pascal Fabre nas duas últimas etapas da temporada de 1987. Eram os GPs do Japão e da Austrália. Seria a estreia oficial de Roberto na Fórmula 1. Justamente num carro que mais parecia uma cadeira elétrica. Em Suzuka, o carioca abandonou com problemas na injeção de combustível em seu carro.

Roberto estreou na AGS no GP do Japão de 1987. Em Suzuka, abandonou

Roberto estreou na AGS no GP do Japão de 1987. Em Suzuka, abandonou

Na sequência, Adelaide. As expectativas não eram das mais positivas. Moreno estava na AGS mais para consolidar-se na Fórmula 1 em 1988 do que para vislumbrar algum resultado. O equipamento era pífio. Mas Roberto ganhou de pronto os mecânicos da equipe, mesmo com a esquálida classificação: garantiu a 25ª e penúltima posição no grid, com 1m23s659, a 6s392 de Gerhard Berger (Ferrari), o pole position na Austrália.

O principal objetivo do brasileiro em Adelaide era levar seu AGS até a bandeira quadriculada. Para isso, era necessário superar o desgaste das 82 voltas e as dificuldades do travado circuito de rua australiano. Moreno iniciou a prova travando um bom duelo com Christian Danner (Zakspeed). O alemão levaria a melhor, sobretudo por ter um equipamento superior em mãos.

Moreno duelou com Jonathan Palmer e Christian Danner nas ruas de Adelaide

Moreno duelou com Jonathan Palmer e Christian Danner nas ruas de Adelaide

Na sequência, Roberto teria uma disputa árdua com Palmer. O inglês da Tyrrell, que largou em 19º e saltou para 14º ainda na volta 1, foi para o fundo do pelotão na volta 8. Jonathan passou a perseguir Moreno na volta 19, e se fez valer da regularidade de seu bólido para ultrapassar o piloto da AGS na volta 36 para assumir o 16º lugar. Roberto tinha consciência que seu papel não era dividir curva com os adversários, mas sim levar seu carro até o fim.

Na volta 47, apenas 15 carros estavam na pista de Adelaide. Moreno era o 15º. À frente, estavam Dalmas (14º) e Palmer (13º). O brasileiro da AGS, então, apostou na resistência e regularidade de sua pilotagem e na sorte para subir na classificação. Os rivais iam ficando pelo caminho. Na volta 63, era o 10º. Depois, contou com problemas de Danner e Andrea de Cesaris (Brabham) para assumir o oitavo lugar na volta 76. Na passagem seguinte, viu Riccardo Patrese (Williams) ficar pelo caminho para assegurar o sétimo lugar.

O sétimo lugar na Austrália virou sexto com a desclassificação de Ayrton Senna

O sétimo lugar na Austrália virou sexto com a desclassificação de Ayrton Senna

Por um triz, não veio o ponto. Ainda assim, Roberto era exaltado pela AGS. Horas depois da bandeirada, o ápice: Senna foi desclassificado. Na segunda corrida da carreira, Moreno pontuava. Todo esforço foi recompensado. Até pedir dinheiro emprestado para viajar para a perna final do Mundial, Roberto precisou. É bem verdade que os donos da equipe não quiseram reembolsá-lo pela passagem, e que teve de entrar na Justiça – sim, isso aconteceu! – para reaver a grana (veja a história no site Bandeira Verde).

Mesmo com todos os percalços, Moreno triunfou na AGS. A façanha, porém, não manteve o brasileiro na escuderia em 1988. Roberto ficaria a pé de novo – o time francês optou pelo investimento do compatriota Phillipe Streiff. Ainda assim, a fantástica história é marcante. Em 15 de novembro de 1987, Roberto Pupo Moreno apresentou ao mundo sua capacidade de produzir verdadeiros milagres na Fórmula 1.

Moreno divide curva com Riccardo Patrese (Williams) e Phillipe Alliot (Lola)

Moreno divide curva com Riccardo Patrese (Williams) e Phillipe Alliot (Lola)

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Adelaide, AGS, Andrea de Cesaris, Austrália, Christian Danner, Jonathan Palmer, Lola, Pascal Fabre, Phillipe Streiff, Roberto Moreno, Tyrrell, Yannick Dalmas, Zakspeed. ligação permanente.

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