Mônaco-1992: Moreno e as 11 voltas da Andrea Moda

Roberto Moreno e o milagre de classificar a Andrea Moda em Mônaco-1992

Roberto Moreno e o milagre de classificar a Andrea Moda em Mônaco-1992

“Graças a Deus, eu tive a oportunidade de classificar o carro em Mônaco-1992 e fui aplaudido de pé por todos os engenheiros e chefes de equipes da Fórmula 1 quando entrei nos boxes. Aquele momento foi para mim o melhor. Foi um reconhecimento enorme do que eu fiz. O carro superaquecia na quinta volta, só podia fazer quatro voltas para classificar, e mesmo assim consegui, no meio do grid. Nos últimos minutos, a pista estava mais rápida, e eu nos boxes com problema mecânico. Fiquei em último”.

A afirmação foi dada num 30 de maio de 1992. Naquele momento, talvez o autor da frase não tivesse percebido de que aquilo seria o máximo que conquistaria a bordo daquele que é considerado por muitos especialistas “o pior carro da história da Fórmula 1”. Nem ele, tampouco quem estava em Montecarlo. Todos estavam de olho na “Williams do outro planeta” de Nigel Mansell e Riccardo Patrese. Todos queriam ver se Ayrton Senna, com a “McLaren dos mortais”, poderia desbancar a dupla da escuderia de Frank Williams. Pouquíssimos se deram conta da façanha de Roberto Pupo Moreno. A 26ª e última colocação nos treinos oficiais de sábado classificou pela primeira – e última – vez a Andrea Moda para um GP.

Andrea Sasseti, o pai da Andrea Moda: fanfarrão e prisão após o GP da Bélgica

Andrea Sasseti, o pai da Andrea Moda: fanfarrão e prisão após o GP da Bélgica

Para entender o heroico momento, é necessário voltar para 1991. No final daquele ano, a Coloni, uma das mais emblemáticas carroças da categoria, desistiu de seu projeto na Fórmula 1. A estrutura do time foi colocada à venda. Foi quando surgiu Andrea Sasseti, um excêntrico empresário italiano, bon vivant e frequentador assíduo das noites europeias, interessado no projeto. À época, a Coloni era mais lenta que carros da Fórmula 3000, categoria de acesso à Fórmula 1. A venda foi feita à preço de banana. Pronto: Sasseti tinha sua equipe para 1992 – a Andrea Moda. Todavia, era o italiano de 32 anos que mandava e desmandava na escuderia. E o mundo cruel da Fórmula 1 não aceita fanfarrões.

Na África do Sul, Sasseti enviou os compatriotas Alex Caffi e Enrico Bertaggia para Kyalami, mas faltaram peças para montar carros para os dois. Com isso, apenas Caffi foi para a pista, e na quinta. Na sexta, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) excluiu a escuderia da prova por não pagar uma taxa de US$ 100 mil à organização – Sasseti entendia que, pelo fato do time ter corrido como Coloni em 1991, não deveria ser considerada uma novata. Após o episódio sul-africano, o dono da Andrea Moda pagou os tais US$ 100 mil a Bernie Ecclestone. Mas faltavam peças – e carros – para disputar o GP do México. Caffi e Bertaggia aproveitaram as praias mexicanas e sequer entraram no cockpit no Circuito Hermanos Rodriguez. Irritados, os pilotos pediram o boné.

Moreno passou a defender a Andrea Moda a partir do GP do Brasil de 1992

Moreno passou a defender a Andrea Moda a partir do GP do Brasil de 1992

Sasseti precisou correr atrás de uma nova dupla. Foi neste momento que Roberto Moreno entrou na história. O brasileiro, que estava a pé após a temporada 1991, foi convidado pela Andrea Moda. E topou, sem pestanejar. Ao seu lado, estaria o britânico Perry McCarthy. Estaria, pois faltava-lhe a Superlicença da FIA. Apenas Moreno representaria a Andrea Moda no GP do Brasil. Representaria, se não ficasse a 15 segundos do pelotão da frente, não passando da pré-classificação. O mesmo se repetiria em San Marino e Espanha.

Foi então que veio o GP de Mônaco. Nos treinos, Moreno fez o impossível. O carro da Andrea Moda conseguiu ter uma sequência de voltas. Tanto que superou a pré-qualificação. Pilotos com equipamentos superiores, como Damon Hill (sim, o campeão de 1996) e Eric van de Poele, da Brabham, e Ukyo Katayama, da Larrouse, foram ficando para trás. Após figurar no meio do grid, Roberto foi obrigado a assistir aos treinos dos boxes. E por apenas 0s036, conseguiu bater Van de Poele e garantir um lugar – o último – no grid.

Em 31 de maio de 1992, Moreno largou, mas sabia que com aquele equipamento pífio não iria muito longe. Mesmo assim, foi resistindo. Em último, mas mantendo o Andrea Moda no traçado do Principado. Na volta 12, a surpresa: já estava em 19º. Contudo, o esperado aconteceu: o motor Judd V10 de seu carro quebrou.

Correr o GP de Mônaco de 1992 foi o ápice da Andrea Moda

Correr o GP de Mônaco de 1992 foi o ápice da Andrea Moda

Foi o fim do conto do brasileiro. Foi o fim também da linha para a Andrea Moda. A equipe não conseguiu mais se classificar para nenhum prova. Pior: no GP da Bélgica, Andrea Sasseti foi preso por emitir notas fiscais frias. Era a deixa para a FIA banir a escuderia do ‘circo’ da Fórmula 1. O motivo? “Trazer má reputação ao esporte”. Sim, o time foi uma piada. Mas há 20 anos, Moreno transformou a maior bagunça da história numa escuderia de Fórmula 1.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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Uma resposta a Mônaco-1992: Moreno e as 11 voltas da Andrea Moda

  1. Danilo diz:

    O Operário da Velocidade, sempre competente independente do equipamento que utilizava!

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