Brasil-2003: Giancarlo Fisichella, a Cinderela de Interlagos

Fisichella e o carro vencedor de Interlagos. Vencedor?

Fisichella e o carro vencedor de Interlagos. Vencedor?

Observe a imagem acima. Agora imagine que esse cidadão foi ao pódio desta corrida. Impressionado? Mas é fato. Pois bem. Então sente-se e veja a imagem de novo. É possível acreditar que o piloto desse carro envolto a labaredas foi declarado vencedor de um GP do Brasil de Fórmula 1 dias depois do fim da corrida? Sim, isso aconteceu em 6 de abril de 2003. O iluminado da vez? Giancarlo Fisichella.

Sorte nunca tinha sido companheira na carreira deste italiano. Na categoria desde 1996, este romano flertou com o topo do pódio, mas jamais tinha estado no lugar certo, na hora certa. Defendeu a Minardi em frangalhos em sua primeira temporada e a inconstante Benetton entre 1998 e 2001. Viveu seu melhor ano em 1997, a bordo da promissora Jordan. Voltou ao time de Eddie Jordan em 2002. Contudo, a escuderia irlandesa já vivia o ocaso em sua passagem pela Fórmula 1.

Em 2003, Fisichella tinha os pés no chão. Não dava para ter pretensões na Jordan. Pontuar era um sonho quase inatingível. Vencer era um ideal digno de ser levado a um manicômio. O carro era ruim, o motor Ford era o pior do grid. Para se ter uma ideia, sua equipe só tinha equipamento superior ao da Minardi. Seria uma temporada para esquecer. Mas havia Interlagos no caminho de Giancarlo.

fisico

Largando na oitava posição, Fisichella viu oportunidade de pontuar: chuva abençoada

O treino classificatório trouxe um alento ao italiano. Em Interlagos, obteve um incrível oitavo lugar no grid. Largaria ao lado do então pentacampeão Michael Schumacher, da Ferrari. O companheiro do alemão na Rossa, Rubens Barrichello, largaria na pole. Largaria, se uma tempestade não caísse sobre São Paulo. A largada se deu sob safety-car. Por nove voltas, o alemão Bernd Maylander, o piloto do carro de segurança, liderou o GP do Brasil. Antes de Maylander deixar a pista, Fisichella foi aos boxes. Trocou os pneus e fez o reabastecimento. O italiano mudou a tática. E alterou o destino de sua corrida.

No final do pelotão, o piloto da Jordan passava despercebido do público. Discreto, foi subindo de posições. Giancarlo só foi ser notado na volta 19, quando seu companheiro, o britânico Ralph Firman, teve a suspensão quebrada na Reta dos Boxes. Descontrolado, Firman quase acertou Fisichella. A mesma sorte não teve Olivier Panis, da Toyota – o britânico o abalroou no S do Senna. O acidente provocou o retorno do safety-car. Fisico foi aos boxes, assim como todos os líderes. O piloto da Jordan estava em 14º quando foi dada a relargada na volta 23. Nesse momento, a chuva aumentou de intensidade, formando uma verdadeira corredeira na Curva do Sol. O rio acabou com as corridas de Juan Pablo Montoya (Williams), Antonio Pizzonia (Jaguar) e Schumacher.

O risco fez com que Maylander voltasse ao circuito. Novo safety-car. Fisichella estava em sétimo quando a relargada aconteceu na volta 30. Nesse instante, foi ultrapassado por Kimi Raikkonen, da McLaren. Mas as disputas foram mais uma vez interrompidas. Jenson Button (BAR) e Jos Verstappen (Minardi) sucumbiram ao Rio da Curva do Sol. Novamente, o carro de segurança estava na pista. O reinício dado na volta 36 significou o começo do sonho de Giancarlo. O piloto da Jordan mostrou regularidade no momento certo, quando a pista molhada passou a secar.

Giancarlo em ação na chuva de Interlagos em 2003: vitória épica

Giancarlo em ação na chuva de Interlagos em 2003: vitória épica

Na frente, Barrichello e David Coulthard (McLaren) lutavam pela liderança. O brasileiro superou o escocês, mas na volta 47 uma pane seca acabou com a prova do ferrarista. Sonho acabado para Rubens, sonho ao alcance de Fisichella. Sem Barrichello, Coulthard foi aos boxes. A liderança estava com Raikkonen na volta 52. Surpreendentemente, o italiano da Jordan perseguia o finlandês da McLaren de perto – os pneus Bridgestone de Giancarlo estavam em melhores condições que os Michelin de Kimi. Na volta 54, o inimaginável: Raikkonen erra, e Fisichella assume a ponta.

Era uma primeira posição temporária, é verdade. Mas a sorte estava com Fisico. Mark Webber (Jaguar) escapou e se chocou violentamente na Curva do Café. Os destroços ficaram na pista. Giancarlo e Kimi conseguiram desviar, mas Fernando Alonso (Renault) bateu no pneu do Jaguar. O espanhol machucou a mão, e a bandeira vermelha foi dada na volta 56. Corrida encerrada sem bandeira quadriculada. Quem venceu? Os mecânicos da Jordan comemovam nos boxes. Fisichella para o carro com o motor Ford em chamas – logo, se houvesse nova relargada, Giancarlo estaria fora. Ele não se importava e celebrava o feito.

Todavia, a direção de prova acabou com a festa de todos: o triunfo era dado para Raikkonen. Fisico era o segundo. No pódio, apenas os dois – Alonso, o terceiro, foi para o hospital. Uma festa sem muita comemoração. Fisichella estava notadamente frustrado. A Jordan resolveu protestar contra a direção da prova. Dias depois, provou-se com imagens da TV que a bandeira vermelha foi dada na 55ª volta, e não na 56ª. Assim, a vitória passava para as mãos do italiano. Foi a primeira vitória na carreira de Fisico. A última da Jordan. A última do motor Ford. Tudo isso aconteceu numa prova em que o piloto que mais liderou voltas foi, pasmem, Maylander – 21 no total.

Em Imola, Fisichella recebe taça de 1º lugar das mãos de Raikkonen

Em Imola, Fisichella recebe taça de 1º lugar das mãos de Raikkonen

O troféu do inusitado vencedor do GP do Brasil, o 700º da história da Fórmula 1, foi entregue na prova seguinte, antes do GP de San Marino. Em Imola. Na Itália, o país de Giancarlo. Um final feliz para Fisichella, a Cinderela da temporada de 2003.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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Uma resposta a Brasil-2003: Giancarlo Fisichella, a Cinderela de Interlagos

  1. guiarony diz:

    Muito bom era fã da jordan, só para lembrar, este gp era o de numero 200 da Jordan. Por isso aquele “200” sob as entradas de ar.

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